sexta-feira, 3 de abril de 2009

MATA-BORRÃO DE LÁGRIMAS



São quatro horas da manhã e os sinos da Matriz dobram, preenchendo o vazio que ficou depois que a chuva se foi. Prefiro o som da chuva, mas o dos sinos também é interessante. Não sei por que, nem por quem os sinos dobram. Clichê! E a mente me leva a um subsolo na Avenida Sete, onde havia (ou há) a clicheria Senhor do Bonfim. Tempo sem computadores e impressoras, onde logomarcas eram fundidas em logotipos e tinha a função de timbrar os papéis. Lapiseira 0.1 e canetas nanquim. A defesa do polvo não inunda mais o mar de negro. Está aprisionada no êmbolo da caneta e escorre precisa pelo papel. E agora me recordo do primeiro mata-borrão que eu vi, lá em Ponte Nova, na Chapada Diamantina. Estava no posto dos Correios que funcionava ali desde o tempo em que o meu pai era criança. E parte daquela criança que era eu veio dali, daquela cidadezinha. Outra parte veio daqui mesmo, de Santo Amaro. Chapada e Recôncavo, presbiterianos e católicos. Uma mistura interessante! E que interesse pode haver nisso? Sei lá! Apenas acho interessante dizer que é interessante. Only it! Only you can make the darkness bright! Negra música. Negro nanquim. Hoje traço os meus traços através de um monitor. Não há mais lapiseiras ou canetas; uso o mouse! Também não tem mata-borrão. Mas tanto faz. Nunca usei um mesmo! Nunca usei um monte de coisas. Já usei outras tantas. Parei de usar umas; continuo usando outras. Usarei outras tantas que eu nem sei existir. “Penso, logo existo”! Então eu existo mesmo! Por que penso muito. O tempo todo. Um turbilhão! Tanto que agora Vinicius invade-me a idéia, só por conta da palavra turbilhão! E o pior é que outros pensamentos circulam livremente (livre mente), mesmo com a canção na cabeça (“venha se perder nesse turbilhão/não se esqueça de fazer/tudo que pedir/esse seu coração”). “Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim”! E no disco rígido da minha mente há tanta coisa na memória que poderia ser deletada. Bem, na verdade, acho que não! Deve servir pra alguma coisa. Um dia descubro. E “em pleno mês de abral, Cabril descobrau o Brasal”. Trocadalho do carilho? Altamiro Carrilho e Waldir Azevedo. Chorinho! E voltou a chover! A madrugada chora! Vou chorar um pouquinho também e tentar dormir um pouco, antes que os sinos do despertador dobrem a minha vontade de continuar deitado. Ponto final.

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