quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

ENTREVISTA FEITA POR MARIA VITÓRIA DOS REIS ALMEIDA, 11 ANOS, DA 5ª SÉRIE DA ESCOLA PINGO DE OURO, EM 03/11/2008.


Maria Vitória - Como você se classifica: educador, homem ligado à informática, servidor publico, escritor, intelectual, tudo junto, ou o que?


Marco Valladares - Acima de tudo um ser humano preocupado com os caminhos que a humanidade está trilhando. E acredito na máxima que diz que começamos a modificar o mundo a partir do nosso quintal. Ou seja, já que eu não posso aconselhar a toda a humanidade, cumpre-me o dever de esclarecer, instruir e aconselhar àqueles que me cercam. Acredito ser esse o meu papel como educador (palavra que, para mim, não se restringe às salas de aula).

Profissionalmente, hoje, sou um servidor público municipal concursado. Um funcionário da população de Santo Amaro. É o meu ganha pão. E, felizmente, venho exercendo funções gratificantes e prazerosas dentro da Prefeitura.

A informática é apenas uma ferramenta de trabalho, cuja qualidade de uso vai depender do interesse e da dedicação de cada um. Não apenas a internet, mas também diversos softwares existentes, existem para facilitar os trabalhos. No entanto, nenhum deles pode ser colocado como substituto absoluto de nada. É muito bom conversar por MSN, mas somente uma conversa ‘olho no olho’ pode-nos dar a verdadeira dimensão dos sentimentos expostos. Ainda não inventaram ‘emoticon’ capaz de traduzir os verdadeiros sentimentos. É deveras aconselhável usar a internet como fonte de pesquisa, mas é preciso ter discernimento para separar os sites confiáveis daqueles que apenas espalham o que eu chamo de ‘lendas da web’. E principalmente, não se aproveitar da possibilidade de copiar um texto pronto. É fundamental saber lê-lo, compreendê-lo e transcrevê-lo com as nossas próprias palavras. Ou nos tornaremos a ferramenta da ferramenta.

Quanto a ser um intelectual, se você considerar como tal àquela pessoa que acredita que o exercício mental é tão importante quanto as atividades físicas, e, por isso, mantém-se em constante exercício, absorvendo informações, analisando-as, criticando-as, até formar uma idéia própria a respeito de cada assunto, posso ser chamado assim. Mas, se for colocar este adjetivo no sentido de estar intelectualmente acima da maioria das pessoas, jamais serei um. Sou apenas um eterno esforçado.

Em suma, acabo sendo tudo junto. Afinal, todo ser humano é capaz de uma multiplicidade de ações. Realizando umas melhores que outras e buscando sempre melhorar.


Maria Vitória - Os seus colegas e amigos contam versos e prosas da sua inteligência. Foi berço ou um trabalho de auto-educação do conhecimento?


Marco Valladares - A generosidade dos colegas e amigos não reflete a realidade. Como disse antes, sou apenas uma pessoa esforçada, em constante exercício mental. Uma pessoa que procura absorver o que se passa ao meu redor. Sem preconceito contra nada, pois somente assim se pode criar conceitos. Não dá para não gostar antes de ler, ouvir, ver, provar. É preciso estar aberto ao que se apresenta de novo, mas sempre com a coragem de dizer ‘não’ ao que não agrada, ainda que esteja na moda.

Também agradeço muito aos meus pais pela criação e formação que me deram. Uma infância repleta de livros, discos, cinema, teatro, viagens e, principalmente, muita conversa entre pais e filhos.

Enfim, de nada adianta berço se você não prossegue o caminho de levar avante as possibilidades oferecidas na infância. O esforço pessoal é fundamental para o crescimento como pessoa.


Maria Vitória - Outra característica sua, dizem seus amigos, é a capacidade criativa e critica para cada momento e para cada situação. Como tudo isso flui?


Marco Valladares - O fato de estar sempre com ‘o dedo no gatilho’ é uma característica inata, creio eu. No entanto, é preciso estar atento ao que se passa ao nosso redor, dar a devida atenção ao que as pessoas nos falam e, obviamente, estar atualizado com os assuntos do dia a dia para que o que se diz em cada momento ou situação seja coerente, cabível. Ou então você corre o risco de virar ‘um disco de uma faixa só’! Ai você deixa de ser interessante e passa a ser chato!


Maria Vitória - Como foi a sua passagem pela nossa Escola Pingo de Ouro?


Marco Valladares - Uma das fases mais gratificantes da minha vida, da qual sinto saudades até hoje. Trabalhar com crianças, para mim, é como semear, cultivar e colher bons frutos. A sociedade de amanhã será feita por essas crianças de hoje. E eu, o velhinho de amanhã, colherei a sociedade que ajudei a plantar e cultivar hoje.

Isso sem contar o fato de que não existe termômetro mais sincero que a reação de uma criança. Não há como ensinar a crianças sem reaprender a conviver. Quem não consegue isso, para mim, está na profissão errada. E mais um detalhe: tive o imenso prazer de ser professor do meu filho!


Maria Vitória - Sabemos que o senhor não se apega às coisas materiais. Por acaso é Espírita?


Marco Valladares - Não. Não sou espírita. Considero-me um ‘espiritualista’. Creio em Deus como uma força regente, acima da nossa compreensão. Independente do nome que cada um queira dar a esta força, a esta energia criadora. Não tenho religião formal. Respeito a crença de cada um, mas me reservo ao direito de ter uma visão crítica sobre cada uma delas. Se eu tivesse que me definir, provavelmente me classificaria como ‘um compilador dos bons ensinamentos’.

Admiro Jesus, Buda, Maomé e todos que deixaram mensagens positivas para a humanidade. Busco compreensão desde as crenças mais primitivas às religiões mais fundamentadas em doutrinas.

Quanto ao apego aos bens materiais, o que posso dizer é que de nada me serve ter algo que seria mais útil a outra pessoa. Que nenhum prazer me dá ter algo que não me tenha serventia. Não gosto de acumular. Gosto de ter o que me dá prazer e conforto. Prefiro ser lembrado pelo que fui a pelo que tive.


Maria Vitória - Como o senhor vê o momento atual da educação Brasileira? Dentro a analise critica o que diferencia o ensino publico do privado?


Marco Valladares - A educação brasileira passa por um período de transição pós-ditadura (são apenas 20 e poucos anos de democracia), onde a sociedade, concomitantemente, passa por uma revolução tecnológica que traz informações tão diversificadas que fica difícil, agora, acusar.

No entanto, um dos principais problemas da educação, ao meu ver, está fora da escola. Ele se inicia na ruptura do núcleo familiar. Existem famílias onde pais e filhos pouco se vêem, pouco conversam quando se vêm. Hoje é comum os lares terem se transformado em habitáculos privados dentro da mesma casa. Espaços restritos onde não há convivência ou troca de informações. Cada um come em um horário, tem sua própria TV, seu próprio PC e seu próprio universo. Os pais passam a desconhecer o que seus filhos fazem, do que gostam, com quem e o que conversam. Esquecem de educar. E transferem esta função para a escola, cujo papel é de dar educação formal.

Some-se isso às dificuldades inerentes ao ensino de crianças e adolescentes, e temos um aparente caos educacional. Mas creio que o equilíbrio chegará com a maturidade da sociedade em relação às novidades que se apresentaram nos últimos anos.

E, infelizmente, o que diferencia, primordialmente, o ensino público do privado é o enorme descaso dos governos, em todas as instâncias, com o ensino público. Não há investimento sério em formação de profissionais, em remuneração, em estruturação das escolas para o desenvolvimento das atividades acadêmicas e, o mais cruel dos descasos, não há nenhuma preocupação com o aprendizado. Não é preciso saber. O importante é seguir adiante e abrir novas vagas.


Maria Vitória - A sua capacidade criativa é incontestável. Porque não editou ainda livros? Preguiça? Falta de patrocínio ou o que?


Marco Valladares - Agradeço o elogio e esclareço: já publiquei sim alguns dos meus livros. Infelizmente foram tiragens pequenas, quase artesanais, e já se esgotaram. Tenho, publicados, ‘Dilúvios - Trilogia de Uma Década’, ‘Amar Vale A pena’, ‘O Histrião Arpista’, ‘Soturno’ e ‘O Forasteiro’ (este último publicado em capítulos no jornal O Trombone).

Aproveitando uma mídia nova (os blogs), disponibilizei todos eles em formato de blog, na internet. Você poderá encontrar os links para eles e para outros que estão sendo escritos ‘à vista do freguês’ neste endereço: http://marquinhovalladares.blogspot.com/

Claro que se aparecesse quem tivesse interesse em patrocinar, eu teria imenso prazer em republicá-los. Inclusive estou com um livro inédito, em parceria com a escritora Maíra Vasconcelos, pronto para ir para a gráfica, necessitando de um patrocinador.


Maria Vitória - O senhor escreve constantemente para o TROMBONE. Que papel tem esse jornal para a nossa cidade e para a nossa juventude?


Marco Valladares - O Trombone, como todo veículo de comunicação, tem, no mínimo, o dever de informar. Além disso, este jornal sempre teve como característica as denúncias e a divulgação de parte da produção cultural de nossa cidade.

Santo Amaro é um município que sempre teve os seus veículos de comunicação. Numa pesquisa feita com alunos do CETS chegamos a contar mais de cem publicações já existentes por aqui.

É imprescindível ter veículos independentes, que noticiem, critiquem e denunciem em favor da sociedade à qual servem. Neste ponto, com poucas ressalvas, que prefiro não comentar por questão ética, ele cumpre o seu papel.

Em relação à juventude santamarense, a importância está, além do já descrito, na possibilidade de ser mais uma fonte de leitura (hábito tão restrito nos dias de hoje) e de conhecimento. Afinal, aquele que pouco ouve e que pouco lê, com certeza, terá muito pouco a dizer.

Um comentário:

fabiana disse...

Escritor, intelectual, professor, educador, poeta, servidor público, amigo, PAI e acima de tudo e todos os MqVs que existem em você, o SER. Espetacular, cauteloso no 1º olhar e com uma docilidade imensurável ao conhecermos. Você O CARA!!!! Te admiro muito, te curto muito... te adoro amigo. bjs