sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A HISTÓRIA DOS LIVROS DE AMANHÃ.*


5 de novembro de 2008. O resultado do democrático, mas complicado, sistema eleitoral americano aponta não apenas para a vitória de Barack Hussein Obama Jr., que já havia derrotado, nas prévias do partido democrata, nada mais nada menos, que a Senadora Hillary Clinton, esposa do ex-Presidente Bill Clinton. O que se apresenta, para os norte-americanos e para o mundo, neste instante, é uma mudança de postura. Uma virada na página da história mundial. Um marco para a humanidade!
Exagero? Com certeza, não!
Não estou aqui dizendo que tudo mudou, que o mundo vai acabar com a miséria e a fome. Tampouco estou a falar que as guerras acabaram e que a distribuição de renda vai ser mais justa. Ou que, finalmente, os países mais pobres serão respeitados pelos líderes mundiais. Não sou louco, nem oráculo do novo æon. O que digo é que, numa análise, rasa, inicial e baseada apenas nos fatos que nos foram permitidos conhecer, podemos estar certos de que a partir deste resultado o mundo jamais será o mesmo.
Da mesma forma que a queda do muro de Berlim (9 de Novembro de 1989) e o ataque terrorista ao World Trade Center (11 de setembro de 2001) modificaram indelevelmente os rumos de todo o planeta, apesar de aparentemente serem fatos localizados, a vitória de Obama assim fez na história atual e viva que nos cerca.
É certo que apenas os próximos quatro anos dirão se ele está ou não preparado para governar o País considerado a maior potência mundial. Mas o que quero explanar nestas linhas é o fato já concluído: a explicitação da vontade do eleitorado, feita de forma nunca antes conhecida pelas eleições americanas.
Foi um número percentual que não se via há um século, em um regime eleitoral onde o sufrágio não é obrigatório. Mais de 64% dos eleitores inscritos para votar compareceram às urnas. O mais próximo que houve disso, mais recentemente, foi quando da eleição de John Fitzgerald Kennedy (1960), onde o comparecimento foi de cerca de 63%.
Além disso, o perfil dos eleitores não pode ser limitado por idade, camada social, nível de instrução ou (e esse é o diferencial maior) por etnia. O fato do mestiço Obama (filho de pai negro, africano, e mãe branca, norte americana) ser considerado como negro na sociedade americana, normalmente afeita a preconceitos e segregações (com raras exceções nas grandes cidades cosmopolitas), em vez de afastar o eleitorado dito branco, aglutinou-o, de forma inédita, com os eleitores negros e imigrantes legalizados.
É notável o passo inicial para uma nova visão social dentro de uma nação que já se digladiou em uma sangrenta guerra civil, que suporta a existência de uma Ku Klux Klan e que ainda espera, há 45 anos, a realização do sonho do pastor Martin Luther King - “Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação. (...) Eu digo a vocês hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. (...) Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais. (...) Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!”.
Claro que ninguém, de sã consciência, acredita que, passada a euforia das comemorações e retomada a rotina do dia-a-dia, esta confraternização plurissocial vai permanecer ardendo com a mesma chama que iluminou os sorrisos daqueles que foram às ruas fazer a festa da vitória. Mas é inegável que nem mesmo o mais pessimista dos analistas sociais poderá afirmar que nada mudou. Que a semente de um futuro de menos intolerância foi fincada no ainda árido terreno das diversidades sociais que infestam a sociedade norte americana, e que pode, sim, germinar.
O papel de super-herói da fantasia de superioridade absoluta sobre o resto do mundo cairia bem melhor no seu oponente nas eleições, John Sidney McCain III, herói de guerra, ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, condecorado com a Estrela de Prata, a Legião de Mérito, a Cruz de Aviação por Serviço Distinto, a Estrela de Bronze, e com o Coração Púrpura. No entanto, entre a fantasia e o sonho, a opção foi pelo segundo. E o soldado McCain soube, ao agradecer aos seus eleitores após o resultado, dentro da sua formação militar, dar o devido valor à vitória de Obama: “Ele deixa de ser o meu oponente e passa a ser o meu Presidente”.
No novo sonho que acaba de começar, Obama não é o salvador da pátria. A ele cabe o papel de agente aglutinador, de ícone de um desejo coletivo que passou, através do voto, livre e democrático, de um sonho distante a uma nova realidade que merece a atenção de todos.
Agora Barack Hussein Obama Jr. é o presidente eleito dos Estados Unidos da América e a partir de 20 de janeiro de 2009 a Casa Branca o receberá como inegável imagem da mudança e da esperança.
Mas a esperança não se transforma em realidade plena apenas com um homem, com uma equipe de governo, ou até mesmo com uma única nação. A mudança que o mundo anseia depende de cada um de nós. Caso você pergunte se podemos realizá-la, permito-me a apropriação da frase mais famosa da campanha do novo presidente americano: Sim, nós podemos!


* Apenas a visão de um professor de História do interior, para leitores interioranos de um jornalzinho mensal do mesmo interior.

Nenhum comentário: