domingo, 22 de junho de 2008

ANJO TATUADO

Sua figura causava, inevitavelmente, a mesma reação nas pessoas. Os olhares se fixavam nos seus trajes, sempre escuros e sombrios, no seu andar meio de banda, como se estivesse sendo vigiado ou vigiando alguém. Era, por natureza, um notívago e sair à luz do dia não lhe fazia bem para os olhos com fotofobia e nem para o humor. Também não combinava com as suas vestes. Assim sendo, é normal que esta história se passe entre o por e o nascer do Sol.
O relógio passava pouco da hora da Ave-Maria quando ele acabou de almoçar, vestiu uma calça e uma T-short pretas, calçou suas botas de couro cru e colocou o seu blusão marrom, já um tanto desgastado no colarinho e nos cotovelos, e partiu para mais uma noite solitária.
Caminhava lentamente pela pequena cidade, mais uma vez como se fosse um imã de olhares. Aquilo não o incomodava (pelo menos, não mais), mas acabava por deixá-lo sem saber para onde olhar, uma vez que era a timidez personificada. Assim, para se distrair, ia tateando plantas, grades, muros - tudo que atravessasse o seu caminho. Talvez o termo correto não fosse tatear, já que tocava as coisas como se acariciasse o rosto de bebê com uma pétala de rosa.
Foi aquilo que chamou a atenção dela. Acostumada com a convivência de rapazes extrovertidos, mais jovens e atléticos, estranhou aquela figura esquálida a circular sozinha e silenciosa pelas ruas centenárias, a bebericar vodka na única e exclusiva companhia dos seus pensamentos. Há muito ela não conseguia olhá-lo sem sentir um arrepio que lhe eriçava a nuca.
Agora estava ali, a menos de um passo daquela presença enigmática. E não sabia como agir, o que dizer, para onde olhar. Sentia-se adolescida, mais que quando tinha espinhas no rosto e seu coração estava certo da paixão que o tomava. No entanto, aquela presença estava muito prematuramente ao seu lado; não estava preparada.
Ao aproximar-se do balcão para pedir cigarros, deu de frente com ele, que se virava, vindo do caixa do bar. O encontro dos olhares durou poucos segundos, porém teve a profundidade de uma fossa oceânica. Não conseguia falar; nem se mexer. Pela primeira vez o viu sorrir. Um sorriso quase infantil. Sorriu, tocou o seu rosto com aquele jeito de quase não tocar, acendeu um cigarro e saiu.
Aquele toque marcou o seu rosto, seus pensamentos, seu coração e sua alma. Era uma tatuagem invisível que jamais haveria como ser retirada. Agora ela tinha certeza que precisava conhecer aquele estranho que deixou o seu toque por todos os cantos dos seus caminhos. Ele havia conquistado a noite, a cidade e ela.
Deitado, sozinho, na sua cama, ele chorava suavemente, com um medo contido. Depois de tanta fuga, tanta saudade, tanta vodka, tantas noites, o maldito destino havia, novamente, cruzado o seu caminho com o de um anjo. O único problema é que, por serem alados, os anjos voam e se vão. Fechou os olhos, dormiu e sonhou que era feliz.


(Do livro ‘SOTURNO’)

HOMENAGEM PÓSTUMA AO TEU REINO INFAME


Fostes puta,
Prostituta perdida
Que fez-me achar
A vida
Uma podridão fétida,
E a mim o câncer
No peito da criança
De pai fumante.
Sangra de mim a porra acre
Que fecunda
Humanos de merda
Como tu, como eu.
Oh puta
Crescida na amplidão
Da libidinagem
Dos antros dos ratos,
Fizestes de mim o teu reino,
E fostes soberana
Sobre o trono de pus,
Amarelo como teu corpo
Sifilítico e lindo
Como os edemas que crio
A cada queda de pós-embriaguez,
Onde vomito a cachaça
E as poesias que inspiras!


(De ‘O HISTRIÃO ARPISTA')

sexta-feira, 20 de junho de 2008

VENDO NADA

A tarde está fria,
Anuncia uma noite
Gelada, solitária,
Imensa.
A mais longa das noites
Está para chegar,
Trazendo lembranças,
Dores e alegrias
Vividas a dois,
A milhões de carícias
Que se perderam
No caminho.
A noite não sabe
Onde guardou a
Lua cheia e o seu
Colar de estrelas.
A noite não sabe
Onde se esconde
O calor do sorriso
Que estou cego
De não ver.

(Do livro ‘O Histrião Arpista’)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

DESTINO

Sou eu, lá, avante...
Velho, chato
E sozinho...

Sem burro...
Sem infante...
Seguindo...

Sou eu, lá, avante;
Dobrando, solitário,
A derradeira curva do caminho.

Burro...
Infame...

Seguindo...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

PROPOSTA


“É comum a gente sonhar, eu sei
Quando chega o entardecer...”
E foi você mesmo quem me ensinou
Que basta ter um tostão
E comprar uma panela...

Pois muito bem!
Tenho eu, ao menos teoricamente,
Muito mais tempo
Para ganhar outro tostão.

Então não discuta...
Pois contigo também aprendi
A dizer “sei que não vou por aí”,
Que de nada vale o “Ouro de Tolo”
E que “por força desse destino
Um tango argentino me vai
Bem melhor que um blues...”

Deste modo, tornei-me mais resistente,
Persistente, insistente e renitente
Que "a flauta do Seu Lobato”...

Assim, aceita, pois, a oferta
E, caso o meu tostão lhe sirva,
Compra a tua panela
E mete-te dentro dela...

Depois, sem pressa,

“Desenha-me um carneiro”!

terça-feira, 3 de junho de 2008

SOU

Nunca conseguirei ser
Tudo que acham que sou.
Nunca conseguirão saber
Tudo que consigo ser.
Entre o eu deles e o meu,
Acho que consigo sobreviver.
Com certeza, eu, do eu,
Acho que nunca saberei.
Mas sou!



SUSSURROS

Jamais creia n’aquilo
Que a solidão, sorrateira,
Sopra-lhe aos ouvidos.
Prefira acreditar no que,
Quase sem querer,
Sussurras à solidão!