quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A LUA E A CIDADE


A lua boiava no infinito estrelado e, abaixo dele, a cidade dormia tranqüila. Dali, da janela do sétimo andar, ele podia vislumbrar, até mesmo, o mar, embora distasse uns seis quilômetros.
Mentalmente, cantarolava um trecho da música de Rita Lee: “As luzes da cidade, não chegam às estrelas, sem antes me buscar...”. Amava música, mas havia tempo que não se animava a por um CD para tocar. Quando descobriu que Zélia Duncan havia regravado aquela canção, não hesitou em comprar o álbum. Gostou da gravação, embora ainda preferisse a original, que guardava, zelosamente, em um compacto duplo.
“Num apartamento, perdido na cidade, alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar...”. Aquela frase caia-lhe como uma luva. Ele, realmente, se esforçava para tentar acreditar numa melhora. No entanto, a desesperança teimava por rondar-lhe a vida, a alma. “E, na medida do impossível, tá dando pra se viver...”.
Desde cedo a canção não lhe saia da cabeça e, cada vez mais, lhe tomava as entranhas físicas e emocionais. “O amor é imprevisível como você... E eu... E o céu...”. Apesar de gostar tanto dela, aquela presença ininterrupta já o estava irritando.
A lua boiava no infinito estrelado e, abaixo dele, a cidade dormia tranqüila. Dali, da janela do sétimo andar, ele podia vislumbrar, até mesmo, o amor, embora distasse uns seis meses. Mentalmente, continuava a ouvir Rita e Zélia cantando sem parar: “Conquistando o céu, desprezando o chão...”. Havia algo para ser conquistado, porém, fugia-lhe o que poderia ser. Conquistar o quê?
E por que aquela música não lhe abandonava? Que mensagem havia naquela letra da titia Lee? O que ele não decodificava? Olhando a lua a boiar e a cidade a dormir, passava mais uma noite insone.
No meio da madrugada, após repassar, por dezenas de vezes aquela letra de música, conseguiu, finalmente, entender o que ela lhe queria falar. Agora a mensagem estava clara! Agora ele sabia o que ainda podia ser conquistado.
Não era ela, a letra da música, a quem ele deveria se apegar. O que trazia a conquista final, a conquista da liberdade e da paz, era o título!
Olhou a lua e a cidade, apagou o cigarro no cinzeiro e sorriu pela derradeira vez. Boiou no espaço, como a lua e dormiu em paz na cidade tranqüila. “Da janela do sétimo andar...”.
Ah, sim: a música se chama “Lá vou eu”.

Para Aroldo Daniel dos Santos, com saudade!

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