sábado, 15 de dezembro de 2007

DISCURSOS DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE SANTO AMARO - ALSA - EM 14/12/2007


BREVE DISCORRER SOBRE O PADRE JOSÉ GOMES DE LOUREIRO - PATRONO DA CADEIRA DE NÚMERO 30 DA ACADEMIA DE LETRAS DE SANTO AMARO/BA
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Nas palavras de um dos seus pares mais ilustres, Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade, o Padre José Gomes de loureiro era “um espírito muito jovem e alegre, mas muito rigoroso no cumprimento do dever. Dono de uma memória prodigiosa, capaz de assimilar tudo o que escrevia, sabendo os seus discursos de cor”.
Este dom, somado à sua capacidade de oratória, com seu estilo característico, o fez “um dos maiores e mais apreciados pregadores do seu tempo, sendo o Cardeal Don Augusto Álvaro da Silva um grande apreciador dos seus sermões” (MGSN).
Entretanto, o que para os seus contemporâneos foi motivo de júbilo, para os destas gerações contemporâneas tornou-se uma perda irreparável. Jamais chegarão às nossas mãos e vistas as comprovações do que o seu sobrinho, o iminente cientista Dr. José Silveira afirma: “Ninguém terá escrito mais delicadas homilias, mais substanciosos sermões, mais empolgantes discursos”.
Guardados com precisão na sua memória, os escritos do Padre José Gomes de Loureiro, no entanto, perderam-se através dos anos. E, como à sua época, impossível era, por não existir tal tecnologia, gravar-se missas e discursos, resta-nos invejar os que com ele conviveram, e aceitar, por serem irrefutáveis e ilibadas, as palavras do Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade e do Dr. José Silveira.
Em respeito à forma única do sobrinho José Silveira (haja vista a proximidade afetiva e de convivência) com que do seu tio Padre José Gomes de Loureiro, sintetiza a biografia. Breve discorrer sobre este que, mui apropriadamente é um dos Patronos da Academia de Letras de Santo Amaro, não ouso mais fazer que tão única e humildemente aconselhar a todos a leitura do livro “Vela Acesa” e transcrever o único texto por mim encontrado na biblioteca deste Município, que leva o nome do Patrono da Cadeira que, orgulhosa e honrosamente ocupo nesta Academia:
“A 10 de Julho de 1889, em Santo Amaro da Purificação, nascia o filho do casal Manoel Gomes Loureiro e Elíbia Macedo Loureiro, nascia Padre José Gomes Loureiro, que tanto amou e foi amado em sua terra. Formou seu espírito, sob as vistas do Padre João Octavio, um dos mais notáveis educadores do seu tempo. Do seu famoso colégio saíram jovens de grande talento, tendo muitos alcançado renome e posições nacionais. Seu curso eclesiástico, no Seminário Santa Tereza, foi dos mais brilhantes. Alegre, comunicativo, educado e fidalgo, fez amigos leais que o acompanharam até seus últimos dias de vida. Sua formatura, sua missa nova, foi celebrada a 2 de fevereiro de 1912, com grande pompa, na Igreja Matriz da Purificação, contando com a presença do Arcebispo Primaz do Brasil, D. Jerônimo Thomé da Silva, de quem foi servo obediente e grande admirador. Em Feira de Santana, no Asilo Nossa Senhora de Lourdes, como Capelão, iniciou seu apostolado. Tão inteligente tão capaz e comunicativo, se mostrou com a juventude que, em pouco tempo, para atendê-la, criava um colégio próprio, freqüentado pelos filhos das melhores famílias. Sua vontade, no entanto, era ser vigário na terra do seu berço. Chegou o dia glorioso em que seu sonho foi alcançado. Daí por diante, de corpo e alma, dedicou-se à sua freguesia, ao seu rebanho à sociedade, enfim, que não se cansava de aplaudi-lo. Simples, natural, espontâneo e autentico com facilidade, passou a conquistar a estima e o apreço de toda gente, da maior autoridade aos mais pobres e humildes. Logo deixou de ser Padre Loureiro para se tornar Padre Zezinho.
Isso não impediu que, com seriedade e carinho desenvolvesse todas as suas extraordinárias qualidades: como administrador fazendo ressurgir das cinzas a velha Matriz, quase em ruína, transformando-a na Catedral, que todos admiramos e dela nos orgulhamos. Professor nos colégios e ginásios, ensinou, com rara eficiência, latim e português, sobretudo, nosso vernáculo, que tão maravilhosamente dominava. Sua força maior, sua mais evidente demonstração de talento e cultura, residia, entretanto na oratória. Sua voz débil, sua postura serena e comedida, não impediam que sua eloqüência fosse reconhecida e proclamada. Ninguém terá escrito mais delicadas homilias, mais substanciosos sermões, mais empolgantes discursos. Rara a festa religiosa daquela época, na Cidade, na Capital ou no interior, se fazia, que não fosse, insistentemente, requisitada a palavra de Loureiro. Apesar de todas essas qualidades, por isso mesmo, as altas esferas, jamais lhe fizeram justiça. O titulo de cônego, tão fortemente distribuído, nunca lhe chegou às mãos. Vítima de incompreensões, calúnias e insídias, ao contrario veio a sofrer censura e castigos. Sem o menor motivo, contra a vontade da população, arrancaram-no da freguesia, que tanto amava. Levaram-no, a princípio, para Salvador, para dioceses pobres e incapazes de sustentar o seu vigário. Atiraram-no, posteriormente, pelo sertão a dentro não raro em regiões inóspitas, quando não dominadas pelo famigerado Lampião. Acompanhado sempre pelas duas Santas irmãs, sem revolta, sem protesto, humilde e submisso, pobremente palmilhou os passos dolorosos sua via crucis. Até que seus leais amigos políticos, não podendo suportar tanta injustiça conseguiram trazê-lo para o lugar devido. Desnecessário dizer que sua volta foi um dia de festa para todos. Extraordinária, porém, foi sua consagração pelas Bodas de ouro do seu sacerdócio, a 2 de fevereiro de 1962, quando a cidade em peso, dos mais grandiosos aos mais modestos cumularam-no com um mundo indescritível de homenagens.
Confortado, feliz com tanta provas de carinho, compreensão e afeto, infelizmente, já não era o mesmo. Desaparecera-lhe o sorriso bom e contagiante, a verve no contar casos, de vezes patuscos, mas, no fundo ingênuos. Ferido, nos mais puros dos seus sentimentos, não sanadas as mágoas e as amarguras da insídia, da inveja e da calúnia, cumpria, apenas, os atos religiosos, com a disciplina e veneração de sempre. Não era mais o famoso orador do ‘2 de Fevereiro’, o guia consagrado das Semanas Santas, o sacerdote querido e adorado por todas as crianças. Apagados, foram pouco a pouco, sua alegria de viver e o fulgor das suas palavras. Anulavam-se, assim, as qualidades todas do seu espírito de exceção.
Veio a falecer, em meus braços, a 20 de Janeiro de 1965. A última homenagem que lhe prestei, Santo Amaro cobriu-se de luto, com lágrimas nos olhos e profundo pesar de todos os que contrita e comovidamente acompanharam o seu sepultamento. Jamais, no entanto, seus irmãos santamarenses se esquecerão do pároco de maneiras simples e bondosas, do homem desprendido de luxo e vaidade, igual a todos que o procuravam. Terá morrido na lembrança da cidade, o Padre Loureiro, probo, digno e respeitável; viva, porém, ficou, na consciência e na alma dos que o conheceram e com ele privaram, a imagem singular do Padre Zezinho, querido, admirado e idolatrado. Tanto assim que há poucos dias, os amigos fiéis, transportaram, em cortejo reverente, seus restos mortais para o chão bendito da sua adorada Matriz, lugar de onde jamais poderia ter saído”.
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DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE SANTO AMARO
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Nesta noite solene, da qual ainda não me fiz compreender o merecimento, visto que não me julgo com os mesmos olhos benevolentes dos meus pares, cabe-me, inicialmente, agradecer a eles a honra de fazer parte desta casa. Gratidão que extensiva a todos que comigo percorreram a estrada que vislumbro ao olhar a minha caminhada até o presente instante.
A indefectível fé em Deus faz-me elevar estes agradecimentos a um plano superior, trazendo-os de volta a esta dimensão em certeza de ser sempre apequenado qualquer agradecimento feito à minha mãe, aqui presente, minha primeira alfabetizadora, uma vida dedicada à educação dos filhos e dos alunos, sempre regendo pela pauta do amor; bem como ao meu pai, ausente fisicamente, por circunstâncias, mas sempre presente pelo exemplo de homem que em mim, de forma indelével, inseriu. Ele, uma pessoa sempre ávida pela leitura. A eles devo a minha paixão pelas Letras! Herança bendita!
E partindo da origem para o originado, agradeço aos meus filhos, fontes de alegria e rejuvenescimento, certeza de continuidade perpetuada! As mais belas obras da minha existência! A possibilidade de tornar real a abstração que chamamos Amor!
E não poderia eu deixar de prestar a minha homenagem àquela pessoa que, pela primeira vez, me fez sentir que aquilo que eu escrevia poderia tocar o coração e a alma das pessoas. Aquela que pela primeira vez me chamou de “meu poeta”. Minha prima, para sempre amada, Hercília Maria Aguiar Valladares. A minha Ciloca!
E discorreria eu aqui infinitos agradecimentos, no entanto prefiro utilizar a figura de uma única pessoa, a professora Magali Maia de Jesus, hoje Magali de Jesus Mendes, que me acompanhou da então 5ª Série do 1º Grau até o 3º Ano do 2º Grau, do Colégio 2 de Julho ao Colégio São Paulo, para agradecer a todos aqueles que, de uma forma ou de outra me fizeram abraçar o entusiasmo pelas Letras.
Agradecimentos feitos, aproveito-me da boa vontade dos presentes para, diante de todos, colocar-me à disposição desta Casa, que ora me acolhe, para, dentro daquilo que sei fazer, oferecer a minha dedicada participação no intuito de, cada vez mais, transformar em ação os objetivos para a qual foi criada, preservando a memória e difundindo as Letras, mas também sem esquecer da necessidade de estar sempre com a visão voltada para as mudanças que ocorrem na nossa sociedade, abrindo, assim, as perspectivas para um belo porvir.
Sem que haja mais nada que possa, neste instante, superar, em palavras, a emoção que sinto, calar-me-ei, seguindo o conselho do grande poeta da nossa Língua:
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NÃO, NÃO DIGAS NADA

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

(Fernando Pessoa, 05/06-02-1931)


Marco Aurélio Valladares Souza
Santo Amaro, 14 de dezembro de 2007
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2 comentários:

Anônimo disse...

Não, não digo nada... fico em silêncio admirando o seu talento e o merecido reconhecimento. De longe eu posso...

Rodriguerus disse...

Marquinho, tomara isso te ajude a ter sorte com seus livros, poesias e imagens e vire um sucesso de vendas (já é hora)!

Parabéns!!