sexta-feira, 12 de outubro de 2007

YU-GI-OH; PARÂMETROS X PRECONCEITOS



“Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu...”; “O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada...”; “Boi, boi, boi, boi da cara preta, pegue essa criança que tem medo de careta.”. Não serão estes, exemplos de atitudes erradas que, sem a devida orientação, podem levar a criança a encará-los como normais e passíveis de serem executados?
Não seria o “bicho-papão”, ser amorfo e subjetivo, um terrível “demônio” a povoar os pesadelos infantis?
Também a ignorância sobre as diferenças culturais não seria um incentivo ao preconceito? Ignorância que, ainda hoje, faz com que muitos encarem o orixá Exú como sendo a mesma coisa que o diabo da cultura judaico-cristã ocidental? Uma análise rápida e simples, baseada em paralelos históricos, mostra que Exú está muito mais próximo da figura de Hermes (ou Mercúrio) da mitologia greco-romana, que do “tinhoso” ocidental.
Ao necessitar fazer uma equivalência entre os seus orixás e os santos católicos impostos pelo “senhor branco”, os negros escravizados (desconhecedores da mitologia religiosa dos portugueses) encontraram naquela figura com corpo de homem e pernas de bode, a imagem ideal para representar o mensageiro dos deuses, que devia ser esguio e ágil (como Hermes, que tinha asas nos pés!).
Assim, faz-se, também, necessário conhecer um pouco sobre os chamados “demônios” (palavra dúbia, que sofre interpretações errôneas, sobre a qual o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, já na sua edição de 1958, explica como gênio bom ou mau que, segundo as crenças da antigüidade, presidia o destino de cada homem ou Estado). O Yin e o Yang são forças opostas e complementares, como o bem e o mal, o masculino e o feminino, o positivo e o negativo, a construção e a destruição, a vida e a morte. Desta forma, quando uma criança, ao jogar com as cartas de “Monstros de Duelo” que possuem poder destrutivo, não está, necessariamente, invocando forças do mal.
Quando um personagem de desenho animado de origem oriental invoca um “demônio” como o Dragão Branco de Olhos Azuis, que tem o poder de emitir raios destruidores contra um oponente maligno, ele busca a força deste “demônio” em prol da salvação de um interesse benigno (como libertar o avô aprisionado pelo vilão ou conseguir o dinheiro do prêmio do duelo para a cirurgia da irmã doente).
Difícil de entender? Então busquemos um exemplo mais próximo da nossa cultura. Substituamos o personagem oriental por Moisés, o oponente maligno pelo faraó egípcio e o dragão pela praga de gafanhotos. São as mesmas atitudes, vistas por culturas diferentes. Ou seria Moisés um ser “do mal” por invocar os gafanhotos?
Orientar crianças faz de cada um de nós, pais e/ou educadores, responsáveis por buscar conhecer as diferenças culturais e a saber explicá-las, da melhor maneira possível, conforme a idade de cada criança. Somos os responsáveis por um País sem preconceitos e ciente da diferença entre crendice e fé, fazendo das nossas crianças, adultos com discernimento e espírito democrático. Talvez seja esta a melhor justificativa que se possa dar para “porque estudamos História”.
O bem e o mal, o lobo mau e o caçador, o anjinho e o diabinho (um em cada ombro), o bandido e o mocinho; são todos a mesmíssima coisa, tendendo, a criança, a torcer pelo lado a que for orientada a identificar como o certo. Com exemplos e, principalmente, com atitudes dos adultos.
Diz Baruch Spinoza (em O Pensamento Vivo de Spinoza) que “As palavras bom e mau são empregadas em um sentido relativo; e a mesma coisa pode ser boa e má, segundo os aspectos sob a qual a consideramos (...) Quanto ao mau e ao bom, não indicam nada de positivo nas coisas. São apenas modos de pensar ou noções que formamos, porque comparamos as coisas entre si”.Portanto, o perigo às nossas crianças não se oculta em “cards” ou “games”, nem em desenhos animados ou revistas em quadrinhos. O perigo está em permitir que a ignorância, a falta de diálogo e o abandono gerem adultos sem parâmetros.
Escrito em 2002.

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