quinta-feira, 22 de março de 2007

VELHA ROUPA COLORIDA


Quando a derradeira visita saiu do quarto ele, enfim, voltou a concentração para a sua diversão predileta nos últimos oito dias: contar as gotas que caiam ritmadas do frasco de soro. Era nelas que ele avaliava a sua melhora. Nos quatro primeiros dias elas caíram numa lentidão irritante. Agora estavam numa proporção de uma por segundo. Um avanço considerável!
Como eram precisas as gotas! Um relógio líquido a alimentar o corpo de quem sempre desprezara o passar do tempo. Será que era realmente desprezo? Mais parecia uma Síndrome de Peter Pan crônica de um Dorian Gray sem tela, nem espelho. Quando criança, parecia precoce nos atos e no falar. Adulto, parecia ter parado no tempo. A adolescência fora a única época que lhe vestiu a vida de forma confortável. Agora era um bufão grisalho, de trajes rotos e amarrotados pelo passar dos anos. Vestes teen que ele insistia em cobrir a carcaça, como se possível fosse, assim, manter-se jovem. Descobriu de maneira drástica que a juventude já não lhe era companheira.
O dia amanhecia quando ele voltava para casa após uma noitada com garotos e garotas que, sabe-se lá por qual motivo, apreciavam a companhia daquele “tio” solitário, sempre antenado com as novidades. Talvez ele fosse um misto de irmão mais velho e pai compreensivo. Um conselheiro que não esperava em casa para reclamar; estava lá, no bar, com eles! Em contrapartida, alimentavam-no com a irresponsabilidade sadia própria da idade deles. Ele era um vampiro de momentos; dos momentos que deveriam ser só deles.
Bem, como dizia, o dia amanhecia e ele voltava para casa. Não havia bebido (parara há mais de um ano), e a distância era curta. Mas cochilou! E acordou já na emergência do hospital. Nunca havia cochilado! Era capaz de passar até três dias sem dormir (o que não era o caso) e não estava sob efeito de nenhum medicamento. Mas cochilou!
Uma perna quebrada, três costelas deslocadas, luxações diversas e escoriações generalizadas. Isso abaixo do pescoço! O lábio inferior, pressionado contra os dentes, abriu, dando-lhe a possibilidade de um sorriso duplo. O superior inchou como um baiacu. O olho esquerdo não abria e o direito via através de uma névoa exasperante. O nariz, torto para a esquerda desde uma queda de bicicleta aos 14 anos, desentortara. Na verdade, deformara; graças ao esfacelamento do septo nasal. Estava lindo!
Por dentro o acabamento fora mais brando: pulmão direito perfurado por uma das costelas, fissura no fígado e ruptura dos ligamentos do joelho direito. De acordo com os médicos, a recuperação seria lenta devido ao mau estado físico (acima do peso e fumante!) e à idade.
No primeiro baque estava dormindo e nada sentiu; desmaiou. Só o velho fusca estava irremediavelmente morto; e este foi o segundo baque (doloroso!). A frase “devido à idade” fora o terceiro e definitivo baque. Uma porrada na realidade fantasiosa que criara. Tinha envelhecido! As gotas de soro caiam mais lentas que as lágrimas. Talvez ficassem seqüelas físicas; mas as seqüelas na alma e no ego eram certas. Devia preparar-se para viver assim, doravante.
Após dois meses e meio, teve alta. Neste período, nenhum dos seus jovens amigos apareceu. Apenas alguns poucos parentes e a turma dos anos 80 (alguns grisalhos, outros barrigudos; uns calvos, todos vestindo a idade que tinham!).
Comprou um cachorro, a quem chamou de “Tempo” e várias plantas, que regava com frascos de soro (cada um com seu ritmo, seu tempo...). Passou a andar no calçadão, parou de fumar e, finalmente, trocou de roupa!