quarta-feira, 21 de março de 2007

PESSOA E EU


AUTOPSICOGRAFIA
(Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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Por certo não sou Pessoa.
Talvez me baste ser gente.

PLÁGIOPSICOGRAFIA
(Marquinho Valladares)

Este arremedo de poeta é um fingidor
Que finge e, pra completar, mente.
E chega a fingir que não há dor
Na dor que, de vera, sente.

E os que crêem no que escreve
Na dor da lida sentem bem,
Não as ruas que ele teve,
Mas, só, as que ele não tem.

E assim encalha-me a roda
Que gira em interlúdio, sem razão.
Escombro que não mais acorda
As chamas do meu coração.