quarta-feira, 21 de março de 2007

O AMOR!

O amor que teme a ausência, a distância; que precisa do contato físico ou até mesmo do uso de pelo menos um dos sentidos, no imediatismo do perto estar; ah, pobre sentimento! Tudo podes ser, mas garanto-te: não és amor!
O amor único e plural; leviano e fiel; puro e despudorado; este, não teme a nada. Este, sobrevive enquanto, quem o possui, vida tiver. Os relacionamentos são finitos, temporais, sujeitos a desgastes, brigas, afastamentos. Porém, nada disso destrói o amor. O amor, à vera, verá a eternidade como fronteira final. Talvez, quem sabe, até a ultrapasse na sua ilimitude.
Se você perguntar-me quantos amores eu tive, rirei de ti. Eu não tive amores. Eu os tenho! Guardados, nos seus lugares cativos; entranhados em mim, corpo e alma. Como posso ter um amor findado? Amores que em mim brotaram, aqui ainda estão. E estarão enquanto, em mim, animus houver neste efêmero passar terreno.
O amor não é telúrico nem esotérico; nem exótico, nem comum; nem muito, nem pouco. É, simplesmente, amor. O complexo sentimento autoparadoxal e autofágico. Ele se alimenta de si mesmo, das suas convergências e discrepâncias. O amor não erra nem acerta. O amor só sabe amar. Somente amar! Quando vacilamos sobre a força do nosso amor, quando cremos que ele pode findar, que tempo e espaço são fortes o suficiente para subjugá-lo; ah, pobre sentimento! Tudo podes ser, mas garanto-te: não és amor!
O amor é um nó sem pontas, que uma vez atado, nenhuma espada de Alexandre pode romper. Ele nos amarra para todo o sempre à pessoa amada. E, uma vez correspondido, o amor torna-se, então, o impossível, o sagrado, o supremo, o incomensurável. O amor correspondido é Deus! E como tal, pertence a todos e a ninguém. Onipresente, onisciente, onipotente amor!
Quem sente este amor, sabe que não há mágoa, zanga, rancor, rezas ou simpatias que o transforme em coisa menor. Às vezes o amor dói, nos adoece, maltrata, faz padecer? Mentira, tolice, vã ilusão! Quem tudo isso faz é nossa vontade de fazer do amor uma fórmula onde a reação seja proporcional à ação.
Amar, no entanto, está acima do ter, do estar, do tocar. O amor está em prender, dentro de nós, o bom e em saber que, num fechar de olhos, numa lembrança alegre ou triste, o ser amado lhe toma todo, como se você fosse a carne e ele o espírito. Por ser sublime, ele transforma o carnal em etéreo, o mundano em celestial, o momento em eternidade.
Eu conheço bem esse tal de amor. Todos os dias ele está no fundo dos olhos que vejo no espelho. E sorri para mim! Assim, aprendi a guardá-lo sem dor e a dá-lo a quem amo. Longe ou perto, vivos ou mortos, correspondentes ou não, os meus amores podem até nem lembrar que os amo. Mas o amor não esquece; jamais! Se esquece, esmorece ou se esvai; ah, pobre sentimento! Tudo podes ser, mas garanto-te: não és amor!
E se ainda agora me perguntas o que é o amor, que mais posso dizer?
O amor...
Ora!
O amor é...
O amor!