segunda-feira, 26 de março de 2007

O ALMIRANTE


Nhô Tonho era desses sujeitos nascidos e criados na roça. Mas, apesar da pouca instrução, tinha dado estudo e formado os três filhos. Eles agora eram “doutores” e moravam na capital. Pouco iam ao velho sítio visitar o pai e a mãe, Dona Sinhá. Vez em quando, telefonavam para saber dos velhos.
O grande prazer de Nhô Tonho era cuidar do seu galinheiro. E, desde que tinha ganhado do compadre Chico um galeto todo branco, que agora era um garboso Galo, todo alvo, a quem ele chamava de Almirante, que Nhô Tonho ele passara a se dedicar com mais afinco ao seu criatório. Almirante era um galo dos bons e, para o velho Tonho, mais que isto. Era quase um filho.
O tempo passava e o apego de Nhô Tonho com Almirante só fazia aumentar. O galo comia ração em suas mãos, seguia-o pelo terreiro enquanto ele espalhava milho para as galinhas e, após o almoço, enquanto o dono tirava um cochilo na espreguiçadeira da varanda, se empoleirava na cadeira ao lado, como se estivesse tomando conta de Nhô Tonho.
Os filhos, quando ligavam, de quando em vez, se riam das histórias que, por vezes a mãe, em outras o pai, contavam sobre o tal Almirante.
Certa manhã, Nhô Tonho acordou sobressaltado. O seu querido Almirante não havia cantado no terreiro para tirá-lo da cama. Correu para o galinheiro e seu mundinho desabou. Lá estava o velho Almirante, seu companheiro, estirado, morto.
Nhô Tonho adoeceu. Não queria mais saber do galinheiro, pouco comia e Dona Sinhá, preocupada, ligou para os filhos, pedindo desculpas pelo incômodo. Todos prometeram ir ver o pai.
Carlos, o mais velho, que era “doutor” advogado foi o primeiro a ir ver o pai. Chamou-o à razão, pois não fazia sentido tanto lamento por causa de um simples galo. O pai ouviu calado, balançando a cabeça. O filho, dada a sua missão por cumprida, tomou a benção aos velhos e voltou para a capital.
Pedro, o filho do meio, que era “doutor” engenheiro, chegou cheio de presentes para o pai. Um rádio novo, calças, camisas e algumas palavras de consolo foi tudo que deixou na rápida visita. Dada a sua missão por cumprida, tomou a benção aos velhos e voltou para a capital.
Francisco, o filho mais novo, que era “doutor” Psicólogo, telefonou para Nhô Tonho, pedindo desculpas por não poder ir vê-lo naquela semana, pois tinha um congresso para ir, em outro estado. Mas estava lhe enviando um “presentinho”.
Nhô Tonho disse então a Dona Sinhá: - A gente cria os filhos, forma tudo em doutor e depois de estudados eles deixam de dar valor às coisas que realmente importam. Eles parecem não entender que Almirante não era apenas um galo qualquer. Era meu companheiro! Carlos veio pra me dar bronca, Pedro pra me encher de presentes e Francisquinho nem aqui vem. Vai mandar um presentinho por um portador. Não vou nem querer ver o presente deste ingrato.
Dois dias depois chega a encomenda mandada pelo filho caçula. Quem recebeu foi Dona Sinhá, que com os olhos rasos d’água, chamou o marido. Tonho, meu velho, como você foi injusto. Carlos e Pedro fizeram o que acharam que era acertado. Podem ter errado, mas tentaram. E Francisquinho, você julgou sem compreender os compromissos dele. O “presentinho” chegou!
Quando Nhô Tonho abriu a pequena caixa de madeira, lá estava um franguinho todo alvo e um bilhete do filho: “Querido e amado pai. Sei que nada substitui um amigo que se perde. Mas, por favor, veja se o senhor consegue transformar este pequeno marujo em um almirante. Com amor, seu filho Francisquinho”.