sexta-feira, 23 de março de 2007

MESTIÇO POR NATUREZA


Desde a Pré-História diferentes grupos humanos vêm se encontrando e se misturando física e culturalmente. Os homens primitivos, nômades por necessidade, misturaram tipos físicos, evolutivos e culturais nos encontros pela vastidão do planeta. As civilizações Mesopotâmica e Egípcia promoveram e/ou sofreram invasões. Sumérios, babilônicos, assírios e caldeus ocuparam a Mesopotâmia, enquanto hebreus, assírios, persas, gregos e romanos estiveram no Egito. Fenícios tiveram colônias no norte da África e no sul da Espanha. Hebreus viveram na Mesopotâmia, migraram para o Egito e, já na Palestina, conviveram com assírios, caldeus, macedônicos e romanos. A civilização grega expandiu seus domínios por França, Itália, Turquia, Líbia, Síria e pela antiga Iugoslávia, além de receber macedônicos e romanos. Roma estendeu o seu império por quase toda a Europa, pelo norte da África e pela Ásia Menor. Depois, dez povos bárbaros invadiram a Europa, vindos desde o leste da Ásia (hunos) até o sul da Dinamarca. No Séc. VIII, o Império Carolíngio também abrangeu quase todo o continente europeu. Vindo do Oriente, o Império Bizantino foi da Ásia Menor ao sul da Espanha, passando por todo o norte da África. A expansão Islâmica foi desde a região conhecida como Arábia, passando pelo mesmo roteiro bizantino. As Cruzadas fizeram o percurso inverso.
Vemos que na história do homem, até meados do Séc. XIII, não houve isolamento de civilizações ou etnias humanas. Podemos, então, concluir que o homem é um ser mestiço por natureza. Definindo etnia como “grupo humano com origem comum quanto à raça, cultura e língua” (Mini Dicionário Ediouro da Língua Portuguesa - Sérgio Ximenes), e raça como “grande grupo étnico cujos indivíduos possuem caracteres corporais semelhantes, como a cor da pele, que são transmitidos hereditariamente” (mesma fonte), perguntamos: Qual a nossa raça? Qual o nosso grupo étnico?
Engana-se quem analisa o Brasil a partir da chegada de Cabral. O mais aceito pelos cientistas para o aparecimento dos nossos primeiros habitantes é 12 mil anos. Tribos do período do "descobrimento", como os Tupis, estenderam sua herança cultural por todo o território brasileiro, promovendo mistura entre os povos. A base da população atual (indígenas, portugueses e africanos) já é por demais conhecida de todos. Então, voltamos às perguntas: qual a nossa raça? O nosso grupo étnico? Descendemos de indígenas miscigenados, europeus miscigenados e africanos que, mesmo que vivessem em grupos isolados na África, foram forçosamente misturados nas senzalas. A mistura das misturas. Somos o pluralismo, a soma de características. Devemos nos orgulhar disto, passar este orgulho para nossos filhos, mostrar-lhes que as diferenças fazem a beleza do todo. Nosso povo (que ainda recebeu alemães, italianos, espanhóis, turcos, sírios, libaneses, japoneses e tantos outros) é como uma aquarela, um equilíbrio das tintas que vieram dar vida a esta imensa tela. Quem mede quanto de amarelo, azul ou vermelho há numa pintura? Quem se preocupa em quanto há de azul ou amarelo para compor o verde da nossa bandeira?
Conhecer nossas origens étnicas é importante para que nossas crianças tenham capacidade de encontrar sua identidade enquanto povo, cidadão e principalmente, enquanto pessoa desprovida de preconceitos, afastada do racismo que, através da história, só tem nos dado exemplos de intolerância e genocídio, provindos de raciocínios doentios, afastados de qualquer senso crítico (como a escravidão e o arianismo hitlerista). Sabermo-nos soma é fundamental para respeitarmo-nos e, conseqüentemente, ao outro. A família deve ser o exemplo inicial. Pai e mãe vindos de criações distintas, por pessoas distintas, em casas distintas, unindo suas aprendizagens em prol da melhor estrutura familiar, sem importar qual família é mais isso, ou menos aquilo. Sabemos dos erros cometidos na formação do nosso povo. Não cabe, hoje, tentar desfazer o passado, mas reconhecermo-nos capazes de construir um futuro diferente e cada vez mais igual para todos. Família e escola devem direcionar as crianças para este rumo: a consciência de igualdade. Para uma sociedade onde não seja necessário identificar a sua cor em um documento, como se fossemos, ainda, objetos a serem rotulados e valorados de acordo com a embalagem.
Somos brasileiros! Filhos de uma nação 100% mestiça e que deve dizer isso ao mundo com muito orgulho!

Original de 13 de outubro de 2005.