quinta-feira, 29 de março de 2007

PASSATEMPO


Passa o tempo.
Passo o tempo
Passo a passo
E o passo do tempo
Passa ao tempo
Qu'eu passo.
Passo o tempo.
Passa o tempo
Passo a passo
E ao passo do tempo
Passo o tempo
Qu'eu posso.
No compasso do tempo
Passo descompassado,
Pensando que posso
Passar ao tempo.
Passar o tempo
Passo a passo
É o que posso.
Passa o tempo.
Passa o qu'eu posso.
Ao passo do tempo
Passo,
Passo,
Passo,
Passo...

ZORRA DE VIDA

Soltando farpas,
Largando faíscas,
Quase explodindo.
Batendo biela,
Pedindo penico,
Queimando as pestanas.
Lá vou eu de novo,
Novas velhas
Histórias,
Velhos novos
Caminhos.
De ré pra frente,
Engolindo sapos,
Tomando sopa de pedra.
Vazando pelo ladrão,
Revertendo turbina,
Caindo pelas tabelas.
Cá estou eu de novo,
Poucos velhos
Amigos,
Velhos poucos
Sonhos.
Em sinuca de bico,
Matando cachorro a grito,
De cara pro Sol.
Fazendo firulas,
Escondendo o jogo,
Penteando macaco.
Sempre (quase) perdido,
Quase sempre sozinho.

segunda-feira, 26 de março de 2007

PIRATAS, CORSÁRIOS E BUCANEIROS



Navegando na minh’alma,
Singrando o meu mar,
Nenhum porto me acalma;
Sinto o peito a sangrar.

Vento, sol, calmaria,
Tempestade e luar;
Meu navegar impreciso,
Não tem norte a guiar.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas a rondar
Meu tesouro escondido
Que nem eu sei bem onde está.

Vento em popa, vela aberta,
Sou uma nave à deriva;
Sem sextante ou estrela,
Pra onde guio a minha vida?

Tripulante solitário
Sou grumete e capitão;
Dou-me ordens e obedeço;
Reaprumo o coração.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas a rondar
Meu tesouro escondido
Que nem eu sei bem onde está.

Os mistérios de Bermudas,
A Atlântida lendária,
Já não cabem nos meus sonhos
De uma vida imaginária.

Abaixo velas, ponho remos;
Leme em prumo; direção.
Meus fantasmas vão sumindo
Sem um tiro de canhão.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas derrotados
Meu tesouro escondido
Verei, um dia, ao meu lado.

Sem pressa sei que chego
Onde tenho que chegar;
Se navegar não é preciso
Pararei de navegar.
É preciso viver
O impreciso viver.
É preciso viver
O impreciso viver.
É preciso viver,
É preciso viver
Viver,
Viver,
Viver...

ORAÇÃO AO TODO E ÀS PARTES

Oh Senhor,
Unidade em infinito multiplicada, guardião das nascentes e dos fins,
Dono das almas e das mentes, provedor de todo bem ou mal,
Criador de todas as criaturas, criatura de toda criação,
Fonte de toda dor e de todo prazer,
Luz de todos os olhos, cegueira em toda opressão,
Mostrai que o caminho para ti é o caminho de todas as vidas,
Que não estás nas pedras dos templos, nos símbolos sagrados,
Nos textos inventados por quem te reinventa por interesse!
Mostrai, pai e filho de tudo e de todos,
Que a fé não é aprendida em orações, promessas, dádivas ou penitências,
Que os ritos coletivos não refletem a espontaneidade do amor,
Que sua força e sua vontade são as nossas forças e vontades,
E que cada coisa, cada ser, faz parte de um todo uno,
E que todo preconceito, todo desprezo, toda censura, todo menosprezo,
Todo julgamento, todo subjugo de um ser para com outro ser ou coisa,
Será sempre uma navalha a Te ferir, e que apesar do corte profundo,
Cada gota sangrada fará surgir, em algum ponto do universo,
Uma nova parte deste total que muitos apenas costumam chamar de Deus,
Sem atentar que o verdadeiro sentido da existência desta força
Que conduzimos e que nos conduz, não estará, jamais,
Presa a uma denominação, religião ou instituição!
Oh Senhor,
Obrigado por sermos todos iguais e, no entanto, todos tão diferentes,
E por isso mesmo tão ligados, apesar de, por muitas vezes,
Tão distantes uns dos outros!
Obrigado por mostrar-me que tenho fé em Ti por tê-la em mim mesmo,
E que a dúvida sempre surgirá, pois somos imperfeitos,
Estamos em desenvolvimento eterno, e assim,
Buscando sempre alcançar o melhor de cada um de nós,
Faremos com que cresças junto conosco!
Oh Senhor,
És-me,
Sou-te,
Somo-nos uníssonos acordes na amplidão,
Nos compreendemos, nos cremos, nos amamos e nos vivemos
Numa relação bilateral de criador e criação,
E esta é, para mim, a verdadeira tradução
Do todo e das partes!

O ALMIRANTE


Nhô Tonho era desses sujeitos nascidos e criados na roça. Mas, apesar da pouca instrução, tinha dado estudo e formado os três filhos. Eles agora eram “doutores” e moravam na capital. Pouco iam ao velho sítio visitar o pai e a mãe, Dona Sinhá. Vez em quando, telefonavam para saber dos velhos.
O grande prazer de Nhô Tonho era cuidar do seu galinheiro. E, desde que tinha ganhado do compadre Chico um galeto todo branco, que agora era um garboso Galo, todo alvo, a quem ele chamava de Almirante, que Nhô Tonho ele passara a se dedicar com mais afinco ao seu criatório. Almirante era um galo dos bons e, para o velho Tonho, mais que isto. Era quase um filho.
O tempo passava e o apego de Nhô Tonho com Almirante só fazia aumentar. O galo comia ração em suas mãos, seguia-o pelo terreiro enquanto ele espalhava milho para as galinhas e, após o almoço, enquanto o dono tirava um cochilo na espreguiçadeira da varanda, se empoleirava na cadeira ao lado, como se estivesse tomando conta de Nhô Tonho.
Os filhos, quando ligavam, de quando em vez, se riam das histórias que, por vezes a mãe, em outras o pai, contavam sobre o tal Almirante.
Certa manhã, Nhô Tonho acordou sobressaltado. O seu querido Almirante não havia cantado no terreiro para tirá-lo da cama. Correu para o galinheiro e seu mundinho desabou. Lá estava o velho Almirante, seu companheiro, estirado, morto.
Nhô Tonho adoeceu. Não queria mais saber do galinheiro, pouco comia e Dona Sinhá, preocupada, ligou para os filhos, pedindo desculpas pelo incômodo. Todos prometeram ir ver o pai.
Carlos, o mais velho, que era “doutor” advogado foi o primeiro a ir ver o pai. Chamou-o à razão, pois não fazia sentido tanto lamento por causa de um simples galo. O pai ouviu calado, balançando a cabeça. O filho, dada a sua missão por cumprida, tomou a benção aos velhos e voltou para a capital.
Pedro, o filho do meio, que era “doutor” engenheiro, chegou cheio de presentes para o pai. Um rádio novo, calças, camisas e algumas palavras de consolo foi tudo que deixou na rápida visita. Dada a sua missão por cumprida, tomou a benção aos velhos e voltou para a capital.
Francisco, o filho mais novo, que era “doutor” Psicólogo, telefonou para Nhô Tonho, pedindo desculpas por não poder ir vê-lo naquela semana, pois tinha um congresso para ir, em outro estado. Mas estava lhe enviando um “presentinho”.
Nhô Tonho disse então a Dona Sinhá: - A gente cria os filhos, forma tudo em doutor e depois de estudados eles deixam de dar valor às coisas que realmente importam. Eles parecem não entender que Almirante não era apenas um galo qualquer. Era meu companheiro! Carlos veio pra me dar bronca, Pedro pra me encher de presentes e Francisquinho nem aqui vem. Vai mandar um presentinho por um portador. Não vou nem querer ver o presente deste ingrato.
Dois dias depois chega a encomenda mandada pelo filho caçula. Quem recebeu foi Dona Sinhá, que com os olhos rasos d’água, chamou o marido. Tonho, meu velho, como você foi injusto. Carlos e Pedro fizeram o que acharam que era acertado. Podem ter errado, mas tentaram. E Francisquinho, você julgou sem compreender os compromissos dele. O “presentinho” chegou!
Quando Nhô Tonho abriu a pequena caixa de madeira, lá estava um franguinho todo alvo e um bilhete do filho: “Querido e amado pai. Sei que nada substitui um amigo que se perde. Mas, por favor, veja se o senhor consegue transformar este pequeno marujo em um almirante. Com amor, seu filho Francisquinho”.

VAI PASTAR

Chega de cega-reza,
De cerca-Lourenço;
Esse falso alarido
Está mais chato
Que muruçoca
No pé-de-ouvido;
Parece enguiço
Mal rogado, rebusno
De quem não tem
Espelho, vergonha
Na cara-de-pau.
Minhas aurículas
Penduram brincos;
Mas não brinque
De fazer zoada,
Entoar zurrada.
Isso é água passada
Qu’eu não estou
Mais a fim de ouvir.
Finges oração
No que apenas
É ornejo, lampejo
De pseudolucidez.
Lamento dizer
Que não mais lamento
Dizer não acreditar
Na sua verdade;
Passei da idade.
Orno minha vida
Com o que vale à pena
Pra tumba levar.
Aí, fica difícil caber-me
Este seu orneio.
Vai procurar tua turma
Brincar de pular cerca,
Se coçar no mourão
Pra depois ir pastar.

sexta-feira, 23 de março de 2007

ÁLBUM


A chuva passou; foi embora!
Agora o sol atravessa,
Sem cerimônia, a telha de vidro;
Prisma assimétrico
A criar um arco-íris disforme
Na parede do meu quarto.
Sete cores a bailar vadias,
Desafiando o meu desejo
De enxergar em tons de cinza;
Tornando tudo fotografia antiga,
Um imenso álbum de recordações
Onde nem mesmo eu haveria
De ser algo além de lembranças
Do que se esvaiu de mim.

SE ISSO AQUI NÃO É UM PLÁGIO SEM VERGONHA, EU VOLTO A ACREDITAR EM PAPAI NOEL!

ORAÇÃO DE BALTIMORE
(Encontrada numa velha igreja de Baltimore (EUA) em 1692 - Autor desconhecido)

(...) Sois filhos do universo, tanto quanto as árvores e as estrelas: tendes o direito de estar aqui... E, percebais ou não, o universo se desenrola, sem dúvida, como deveria. Estai em paz com Deus, qualquer que seja vossa concepção Dele e, quaisquer que sejam vossas obras e vossos sonhos, guardai no desconcerto ruidoso da vida, a paz em vossa alma. Com todas as perfídias, as tuas tarefas fastidiosas e os seus sonhos desfeitos, o mundo é belo!
Prestai atenção... Tratai de ser felizes!”


O TOQUE
(Rita Lee/Paulo Coelho) - Álbum: Entradas & Bandeiras, 1976 - Som Livre

Você é uma criança do Universo
E tem tanto direito de estar aqui
Quanto as árvores e as estrelas
E mesmo que isso não esteja
Claro para você
Não há dúvida que o Universo
Segue o rumo
Que todos nós escolhemos
Que o Universo
Segue o rumo
Que todos nós escolhemos

MESTIÇO POR NATUREZA


Desde a Pré-História diferentes grupos humanos vêm se encontrando e se misturando física e culturalmente. Os homens primitivos, nômades por necessidade, misturaram tipos físicos, evolutivos e culturais nos encontros pela vastidão do planeta. As civilizações Mesopotâmica e Egípcia promoveram e/ou sofreram invasões. Sumérios, babilônicos, assírios e caldeus ocuparam a Mesopotâmia, enquanto hebreus, assírios, persas, gregos e romanos estiveram no Egito. Fenícios tiveram colônias no norte da África e no sul da Espanha. Hebreus viveram na Mesopotâmia, migraram para o Egito e, já na Palestina, conviveram com assírios, caldeus, macedônicos e romanos. A civilização grega expandiu seus domínios por França, Itália, Turquia, Líbia, Síria e pela antiga Iugoslávia, além de receber macedônicos e romanos. Roma estendeu o seu império por quase toda a Europa, pelo norte da África e pela Ásia Menor. Depois, dez povos bárbaros invadiram a Europa, vindos desde o leste da Ásia (hunos) até o sul da Dinamarca. No Séc. VIII, o Império Carolíngio também abrangeu quase todo o continente europeu. Vindo do Oriente, o Império Bizantino foi da Ásia Menor ao sul da Espanha, passando por todo o norte da África. A expansão Islâmica foi desde a região conhecida como Arábia, passando pelo mesmo roteiro bizantino. As Cruzadas fizeram o percurso inverso.
Vemos que na história do homem, até meados do Séc. XIII, não houve isolamento de civilizações ou etnias humanas. Podemos, então, concluir que o homem é um ser mestiço por natureza. Definindo etnia como “grupo humano com origem comum quanto à raça, cultura e língua” (Mini Dicionário Ediouro da Língua Portuguesa - Sérgio Ximenes), e raça como “grande grupo étnico cujos indivíduos possuem caracteres corporais semelhantes, como a cor da pele, que são transmitidos hereditariamente” (mesma fonte), perguntamos: Qual a nossa raça? Qual o nosso grupo étnico?
Engana-se quem analisa o Brasil a partir da chegada de Cabral. O mais aceito pelos cientistas para o aparecimento dos nossos primeiros habitantes é 12 mil anos. Tribos do período do "descobrimento", como os Tupis, estenderam sua herança cultural por todo o território brasileiro, promovendo mistura entre os povos. A base da população atual (indígenas, portugueses e africanos) já é por demais conhecida de todos. Então, voltamos às perguntas: qual a nossa raça? O nosso grupo étnico? Descendemos de indígenas miscigenados, europeus miscigenados e africanos que, mesmo que vivessem em grupos isolados na África, foram forçosamente misturados nas senzalas. A mistura das misturas. Somos o pluralismo, a soma de características. Devemos nos orgulhar disto, passar este orgulho para nossos filhos, mostrar-lhes que as diferenças fazem a beleza do todo. Nosso povo (que ainda recebeu alemães, italianos, espanhóis, turcos, sírios, libaneses, japoneses e tantos outros) é como uma aquarela, um equilíbrio das tintas que vieram dar vida a esta imensa tela. Quem mede quanto de amarelo, azul ou vermelho há numa pintura? Quem se preocupa em quanto há de azul ou amarelo para compor o verde da nossa bandeira?
Conhecer nossas origens étnicas é importante para que nossas crianças tenham capacidade de encontrar sua identidade enquanto povo, cidadão e principalmente, enquanto pessoa desprovida de preconceitos, afastada do racismo que, através da história, só tem nos dado exemplos de intolerância e genocídio, provindos de raciocínios doentios, afastados de qualquer senso crítico (como a escravidão e o arianismo hitlerista). Sabermo-nos soma é fundamental para respeitarmo-nos e, conseqüentemente, ao outro. A família deve ser o exemplo inicial. Pai e mãe vindos de criações distintas, por pessoas distintas, em casas distintas, unindo suas aprendizagens em prol da melhor estrutura familiar, sem importar qual família é mais isso, ou menos aquilo. Sabemos dos erros cometidos na formação do nosso povo. Não cabe, hoje, tentar desfazer o passado, mas reconhecermo-nos capazes de construir um futuro diferente e cada vez mais igual para todos. Família e escola devem direcionar as crianças para este rumo: a consciência de igualdade. Para uma sociedade onde não seja necessário identificar a sua cor em um documento, como se fossemos, ainda, objetos a serem rotulados e valorados de acordo com a embalagem.
Somos brasileiros! Filhos de uma nação 100% mestiça e que deve dizer isso ao mundo com muito orgulho!

Original de 13 de outubro de 2005.

quinta-feira, 22 de março de 2007

DIÁFANO

Do poeta verdadeiro,
Não importa seu estilo,
Surgem sempre belos versos,
Distinção do seu ofício.

Agudos ou esdrúxulos,
De arte-maior ou menor,
Com pé quebrado
Ou em sextilha,
Sempre exultam no leitor:
Oh Senhor, que maravilha!

Escritor de poesia,
Em alegria ou lamento,
Segue a norma com maestria,
Exalando o sentimento.

Seja a regra leonina,
Métrica ou rítmica,
Silábica ou trilonga,
Ele sabe e se permite
Pois para isso tem licença,
Ousar a “tonga da mironga”!

Eu, pobre escriba,
Sem técnica nem sabedoria,
Sou, neste meio, indigente.
Sem saber nem verso branco,
Faço então o que me resta:
Eis meu verso transparente.

GRAVIDADE


A chuva escorre
No vidro da janela.
Escorre rapidamente!
O vidro também
Escorre na janela.
Só que lentamente!
Umas vezes sou chuva;
Noutras sou vidro.
Conteúdo e continente,
Deixo escorrer de mim
Os devaneios da mente.
Gotas ou vidro; prismas
Que refratam cores
Ocultas na antiescuridão!
Arco-íris de mim flutua,
Enquanto escorro,
Lento ou rápido;
Gradativamente!

RUMO

Eu, que já tive a ilusão de que exagero
Era igual a intensidade,
E vivia sem limites, inventando paixões,
Doando-me a tudo, e colhendo quase nada,
Aprendi, através da dor,
A suportar as feridas
Que se abriram na alma e no coração.
Conheci os descaminhos,
Os desencontros e o desespero.
Via a face da morte; e ela me sorria!
Dei-lhe as mãos, mas não parti.
Uma vez que permaneci aqui,
Só me restou pensar e repensar
Os caminhos que, atabalhoadamente,
Percorri trôpego, inconseqüente.
Hoje, vislumbro outras paragens,
Lembrando dos erros,
Para não mais, nunca mais, jamais,
Permitir-me cometê-los outra vez.
Abandono, sem saudades, as paixões,
Para abraçar, tranqüilo,
A intensidade sublime do amor!

LUA CHEIA EM QUARTO MINGUANTE (MAÍRA VASCONCELOS)

Se sou eu um espelho abstrato,
Estou aos cacos
Sob colapso
Ao ligeiro relento
Sobre abismos
Às alturas
Prestes a cair
Como um inseto
A ser esmagado

Cá com minha própria metamorfose
Cacofonicamente ou não
Estou aos cacos

Ah, meu caríssimo Gregor Samsa!
Também eu pareço não ser compreendida
Falo o meu próprio dialeto
Penso ser clara, mais clara que penso
Mas claro que lá fora
Ainda há a mesma escuridão na qual
Os mesmos olhos mais atentos nada distingüem

Minhas redações estão cada vez mais obscuras
Mas eu as entendo!
Apenas eu percebo as conclusões das minhas teses
Eis o perigo da vida privada da sociedade
Isso bastaria não fosse o que ainda é
E o que ainda há
É a clareza distinta que há na obscuridade

É que a fonte de luz não consegue
Me iluminar por completo
Bilhões e bilhões de fontes me aguardam
Mas porquê aguardariam?
Pretensão infeliz...

Estou aos cacos
Num quarto que mingua
Estou aos berros
E ninguém entende minha língua
Estou suspensa
Perdida no espaço
Refletindo a luz do Sol para as trevas
Preciso dizer que estou cheia

Sou lua cheia em quarto minguante


SAIBA MAIS SOBRE MAÍRA EM:

VELHA ROUPA COLORIDA


Quando a derradeira visita saiu do quarto ele, enfim, voltou a concentração para a sua diversão predileta nos últimos oito dias: contar as gotas que caiam ritmadas do frasco de soro. Era nelas que ele avaliava a sua melhora. Nos quatro primeiros dias elas caíram numa lentidão irritante. Agora estavam numa proporção de uma por segundo. Um avanço considerável!
Como eram precisas as gotas! Um relógio líquido a alimentar o corpo de quem sempre desprezara o passar do tempo. Será que era realmente desprezo? Mais parecia uma Síndrome de Peter Pan crônica de um Dorian Gray sem tela, nem espelho. Quando criança, parecia precoce nos atos e no falar. Adulto, parecia ter parado no tempo. A adolescência fora a única época que lhe vestiu a vida de forma confortável. Agora era um bufão grisalho, de trajes rotos e amarrotados pelo passar dos anos. Vestes teen que ele insistia em cobrir a carcaça, como se possível fosse, assim, manter-se jovem. Descobriu de maneira drástica que a juventude já não lhe era companheira.
O dia amanhecia quando ele voltava para casa após uma noitada com garotos e garotas que, sabe-se lá por qual motivo, apreciavam a companhia daquele “tio” solitário, sempre antenado com as novidades. Talvez ele fosse um misto de irmão mais velho e pai compreensivo. Um conselheiro que não esperava em casa para reclamar; estava lá, no bar, com eles! Em contrapartida, alimentavam-no com a irresponsabilidade sadia própria da idade deles. Ele era um vampiro de momentos; dos momentos que deveriam ser só deles.
Bem, como dizia, o dia amanhecia e ele voltava para casa. Não havia bebido (parara há mais de um ano), e a distância era curta. Mas cochilou! E acordou já na emergência do hospital. Nunca havia cochilado! Era capaz de passar até três dias sem dormir (o que não era o caso) e não estava sob efeito de nenhum medicamento. Mas cochilou!
Uma perna quebrada, três costelas deslocadas, luxações diversas e escoriações generalizadas. Isso abaixo do pescoço! O lábio inferior, pressionado contra os dentes, abriu, dando-lhe a possibilidade de um sorriso duplo. O superior inchou como um baiacu. O olho esquerdo não abria e o direito via através de uma névoa exasperante. O nariz, torto para a esquerda desde uma queda de bicicleta aos 14 anos, desentortara. Na verdade, deformara; graças ao esfacelamento do septo nasal. Estava lindo!
Por dentro o acabamento fora mais brando: pulmão direito perfurado por uma das costelas, fissura no fígado e ruptura dos ligamentos do joelho direito. De acordo com os médicos, a recuperação seria lenta devido ao mau estado físico (acima do peso e fumante!) e à idade.
No primeiro baque estava dormindo e nada sentiu; desmaiou. Só o velho fusca estava irremediavelmente morto; e este foi o segundo baque (doloroso!). A frase “devido à idade” fora o terceiro e definitivo baque. Uma porrada na realidade fantasiosa que criara. Tinha envelhecido! As gotas de soro caiam mais lentas que as lágrimas. Talvez ficassem seqüelas físicas; mas as seqüelas na alma e no ego eram certas. Devia preparar-se para viver assim, doravante.
Após dois meses e meio, teve alta. Neste período, nenhum dos seus jovens amigos apareceu. Apenas alguns poucos parentes e a turma dos anos 80 (alguns grisalhos, outros barrigudos; uns calvos, todos vestindo a idade que tinham!).
Comprou um cachorro, a quem chamou de “Tempo” e várias plantas, que regava com frascos de soro (cada um com seu ritmo, seu tempo...). Passou a andar no calçadão, parou de fumar e, finalmente, trocou de roupa!

ESTA NAVALHA

Quem empunha esta navalha que me corta as entranhas, expondo-me a mim? Quem se capacita a tal crueldade não pode mensurar o que esta ação é capaz de fazer com a alma desesperada habitada no que resta deste ser. Sinto estar tudo rasgado, estripado, em hemorragia constante. Mas o que borbulha não é sangue. O que se esvai a cada movimento involuntário deste músculo cardial é toda ânima, espalhando este desânimo constantemente inconstante, que por vezes metamorfoseia-se em uma euforia desmedida, capaz de abarcar todo o universo com um único sorriso. Neste vaivém irregular minha vida segue quase que por teimosia, um misto de resistência e desistência incompreensível para a maioria dos que me cercam. Um espírito liqüefeito que escorre entre os dedos, precipita-se sobre os olhos, sudoripa-se a cada poro e faz-me uma Itaipu de contradições, angústias, anseios; uma Chernobil de díspares sentires.
Cada noite insone, cada dia que se arrasta lento, cada qualquer coisa, todos os sei-lá-o-que, tudo; tudo incomoda, tudo me comprime a mim mesmo numa claustrofobia capaz de ser sentida no espaço sideral. Um peso capaz de resistir a qualquer vácuo, um vazio eternizado em não ter/ver solução. Soluços se repetem silenciosos, numa hipocrisia administrada com a resistência que só descubro ainda ter quando fito olhos que não sofrerão jamais por mim. Por mim, várias vezes, já teria resolvido tudo isso. Mas continuo teimando em desafiar este ser que possui esta navalha que me corta as entranhas, expondo-me a mim. Não identifico todos os eus habitantes deste que deveria ser eu; não os reconheço, mas sou obrigado a conviver-me na pluralidade de tantos pedaços.
Não me identifico mais nas lembranças pueris, no adulto adolescido, no espelho, nos pensamentos, nos atos; nem mesmo me identifico neste desespero sem por que. De que vale então cuidar de alguém a quem desconhecemos? Mas vem a maldita esperança de ainda restar uma única célula-tronco, capaz de repartir-se e multiplicar-se até refazer este destroço; até recompor esta decomposição que meu âmago transformou-se. A esperança de ainda ver refletido em algum lugar o olhar que exteriorizava o homem que eu conheci como sendo eu.
Mas se assim não for, por favor, você que empunha esta navalha que me corta as entranhas, atenda ao meu último pedido: amole-a e golpei definitivo.

quarta-feira, 21 de março de 2007

PESSOA E EU


AUTOPSICOGRAFIA
(Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
___________________________

Por certo não sou Pessoa.
Talvez me baste ser gente.

PLÁGIOPSICOGRAFIA
(Marquinho Valladares)

Este arremedo de poeta é um fingidor
Que finge e, pra completar, mente.
E chega a fingir que não há dor
Na dor que, de vera, sente.

E os que crêem no que escreve
Na dor da lida sentem bem,
Não as ruas que ele teve,
Mas, só, as que ele não tem.

E assim encalha-me a roda
Que gira em interlúdio, sem razão.
Escombro que não mais acorda
As chamas do meu coração.

O AMOR!

O amor que teme a ausência, a distância; que precisa do contato físico ou até mesmo do uso de pelo menos um dos sentidos, no imediatismo do perto estar; ah, pobre sentimento! Tudo podes ser, mas garanto-te: não és amor!
O amor único e plural; leviano e fiel; puro e despudorado; este, não teme a nada. Este, sobrevive enquanto, quem o possui, vida tiver. Os relacionamentos são finitos, temporais, sujeitos a desgastes, brigas, afastamentos. Porém, nada disso destrói o amor. O amor, à vera, verá a eternidade como fronteira final. Talvez, quem sabe, até a ultrapasse na sua ilimitude.
Se você perguntar-me quantos amores eu tive, rirei de ti. Eu não tive amores. Eu os tenho! Guardados, nos seus lugares cativos; entranhados em mim, corpo e alma. Como posso ter um amor findado? Amores que em mim brotaram, aqui ainda estão. E estarão enquanto, em mim, animus houver neste efêmero passar terreno.
O amor não é telúrico nem esotérico; nem exótico, nem comum; nem muito, nem pouco. É, simplesmente, amor. O complexo sentimento autoparadoxal e autofágico. Ele se alimenta de si mesmo, das suas convergências e discrepâncias. O amor não erra nem acerta. O amor só sabe amar. Somente amar! Quando vacilamos sobre a força do nosso amor, quando cremos que ele pode findar, que tempo e espaço são fortes o suficiente para subjugá-lo; ah, pobre sentimento! Tudo podes ser, mas garanto-te: não és amor!
O amor é um nó sem pontas, que uma vez atado, nenhuma espada de Alexandre pode romper. Ele nos amarra para todo o sempre à pessoa amada. E, uma vez correspondido, o amor torna-se, então, o impossível, o sagrado, o supremo, o incomensurável. O amor correspondido é Deus! E como tal, pertence a todos e a ninguém. Onipresente, onisciente, onipotente amor!
Quem sente este amor, sabe que não há mágoa, zanga, rancor, rezas ou simpatias que o transforme em coisa menor. Às vezes o amor dói, nos adoece, maltrata, faz padecer? Mentira, tolice, vã ilusão! Quem tudo isso faz é nossa vontade de fazer do amor uma fórmula onde a reação seja proporcional à ação.
Amar, no entanto, está acima do ter, do estar, do tocar. O amor está em prender, dentro de nós, o bom e em saber que, num fechar de olhos, numa lembrança alegre ou triste, o ser amado lhe toma todo, como se você fosse a carne e ele o espírito. Por ser sublime, ele transforma o carnal em etéreo, o mundano em celestial, o momento em eternidade.
Eu conheço bem esse tal de amor. Todos os dias ele está no fundo dos olhos que vejo no espelho. E sorri para mim! Assim, aprendi a guardá-lo sem dor e a dá-lo a quem amo. Longe ou perto, vivos ou mortos, correspondentes ou não, os meus amores podem até nem lembrar que os amo. Mas o amor não esquece; jamais! Se esquece, esmorece ou se esvai; ah, pobre sentimento! Tudo podes ser, mas garanto-te: não és amor!
E se ainda agora me perguntas o que é o amor, que mais posso dizer?
O amor...
Ora!
O amor é...
O amor!