quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

DO PRIMEIRO INSTANTE DE VIDA AO ÚLTIMO SUSPIRO!


Sejam Felizes!

CÂNTICO NEGRO (JOSÉ RÉGIO)

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

ENGAVETANDO


Organize suas dores em uma gaveta!
Separe-as por cor ou tamanho,
Pra ficar mais fácil de achar no escuro.
Use gaveta sem chave ou trinco.
Não sei se você sabe:
Não devemos trancar nenhum tipo de dor!
Depois que tudo estiver bem arrumado,
Escolha sua dor predileta e vista.
Saia com ela sem nenhum pudor.
Ande pelas ruas; vague à toa por aí...
Quando der vontade, pare e chore um pouco.
Prove o gosto de suas lágrimas;
Lembre-se do mar, da maresia.
Então, invente uma Lua cheia
Boiando no firmamento,
Pedindo-lhe uma bela serenata.
Cante aquela canção tão sua
Que você jurou nunca mais,
Jamais, de novo cantar.
Aí, sorria um sorriso sem motivo.
Sorria outro e sorria mais um.
Lá na hora que lhe der vontade,
Volte pra casa e guarde sua dor.
Mas coloque-a em outra gaveta!
Ela já não combina com as outras...
Desbotou!

AMOR (GIBRAN KALIL GIBRAN)



Amai-vos um ao outro,
Mas não façais do amor um grilhão;
Que haja antes um mar ondulante
Entre as praias de vossas almas;
Enchei a taça um do outro,
Mas não bebais da mesma taça;
Daí de vosso pão um ao outro,
Mas não comais do mesmo pedaço;
Cantai e dançai juntos e sejais alegres,
Mas deixai cada um de vós estar sozinho;
Assim como as cordas da lira são separadas
E, no entanto, vibram na mesma harmonia;
Dai vossos corações,
Mas não os confieis à guarda um do outro,
Pois somente a mão da vida pode conter
Vossos corações;
E vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia,
Pois as colunas dos templos erguem-se separadamente
E o carvalho e o cipreste não crescem
À sombra um do outro!

VLADIMIR MAIAKOVSKI


"Amar não é aceitar tudo.
Aliás: onde tudo é aceito,
desconfio que haja
falta de amor".

domingo, 16 de dezembro de 2007

TOMARA QUE TENHA CURA!

MULHER CHORANDO - PABLO PICASSO (1937)
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“Alergia: Designação de estado de hipersensibilidade causado por exposição a determinado antígeno (substância a que, em circunstâncias favoráveis, um indivíduo é exposto, e que pode produzir uma resposta imunológica específica, com a formação de anticorpos específicos ou de linfócitos T (q. v.) especificamente sensibilizados, ou ambos.), dito alergênio (agente capaz de produzir alergia; alergênico, alérgeno.), sendo observadas reações imunológicas nocivas se houver subseqüentes exposições a este mesmo alergênio”.
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Parece incrível, mas tem gente que tem alergia ao Amor. E as reações são imprevisíveis!

sábado, 15 de dezembro de 2007

DISCURSOS DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE SANTO AMARO - ALSA - EM 14/12/2007


BREVE DISCORRER SOBRE O PADRE JOSÉ GOMES DE LOUREIRO - PATRONO DA CADEIRA DE NÚMERO 30 DA ACADEMIA DE LETRAS DE SANTO AMARO/BA
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Nas palavras de um dos seus pares mais ilustres, Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade, o Padre José Gomes de loureiro era “um espírito muito jovem e alegre, mas muito rigoroso no cumprimento do dever. Dono de uma memória prodigiosa, capaz de assimilar tudo o que escrevia, sabendo os seus discursos de cor”.
Este dom, somado à sua capacidade de oratória, com seu estilo característico, o fez “um dos maiores e mais apreciados pregadores do seu tempo, sendo o Cardeal Don Augusto Álvaro da Silva um grande apreciador dos seus sermões” (MGSN).
Entretanto, o que para os seus contemporâneos foi motivo de júbilo, para os destas gerações contemporâneas tornou-se uma perda irreparável. Jamais chegarão às nossas mãos e vistas as comprovações do que o seu sobrinho, o iminente cientista Dr. José Silveira afirma: “Ninguém terá escrito mais delicadas homilias, mais substanciosos sermões, mais empolgantes discursos”.
Guardados com precisão na sua memória, os escritos do Padre José Gomes de Loureiro, no entanto, perderam-se através dos anos. E, como à sua época, impossível era, por não existir tal tecnologia, gravar-se missas e discursos, resta-nos invejar os que com ele conviveram, e aceitar, por serem irrefutáveis e ilibadas, as palavras do Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade e do Dr. José Silveira.
Em respeito à forma única do sobrinho José Silveira (haja vista a proximidade afetiva e de convivência) com que do seu tio Padre José Gomes de Loureiro, sintetiza a biografia. Breve discorrer sobre este que, mui apropriadamente é um dos Patronos da Academia de Letras de Santo Amaro, não ouso mais fazer que tão única e humildemente aconselhar a todos a leitura do livro “Vela Acesa” e transcrever o único texto por mim encontrado na biblioteca deste Município, que leva o nome do Patrono da Cadeira que, orgulhosa e honrosamente ocupo nesta Academia:
“A 10 de Julho de 1889, em Santo Amaro da Purificação, nascia o filho do casal Manoel Gomes Loureiro e Elíbia Macedo Loureiro, nascia Padre José Gomes Loureiro, que tanto amou e foi amado em sua terra. Formou seu espírito, sob as vistas do Padre João Octavio, um dos mais notáveis educadores do seu tempo. Do seu famoso colégio saíram jovens de grande talento, tendo muitos alcançado renome e posições nacionais. Seu curso eclesiástico, no Seminário Santa Tereza, foi dos mais brilhantes. Alegre, comunicativo, educado e fidalgo, fez amigos leais que o acompanharam até seus últimos dias de vida. Sua formatura, sua missa nova, foi celebrada a 2 de fevereiro de 1912, com grande pompa, na Igreja Matriz da Purificação, contando com a presença do Arcebispo Primaz do Brasil, D. Jerônimo Thomé da Silva, de quem foi servo obediente e grande admirador. Em Feira de Santana, no Asilo Nossa Senhora de Lourdes, como Capelão, iniciou seu apostolado. Tão inteligente tão capaz e comunicativo, se mostrou com a juventude que, em pouco tempo, para atendê-la, criava um colégio próprio, freqüentado pelos filhos das melhores famílias. Sua vontade, no entanto, era ser vigário na terra do seu berço. Chegou o dia glorioso em que seu sonho foi alcançado. Daí por diante, de corpo e alma, dedicou-se à sua freguesia, ao seu rebanho à sociedade, enfim, que não se cansava de aplaudi-lo. Simples, natural, espontâneo e autentico com facilidade, passou a conquistar a estima e o apreço de toda gente, da maior autoridade aos mais pobres e humildes. Logo deixou de ser Padre Loureiro para se tornar Padre Zezinho.
Isso não impediu que, com seriedade e carinho desenvolvesse todas as suas extraordinárias qualidades: como administrador fazendo ressurgir das cinzas a velha Matriz, quase em ruína, transformando-a na Catedral, que todos admiramos e dela nos orgulhamos. Professor nos colégios e ginásios, ensinou, com rara eficiência, latim e português, sobretudo, nosso vernáculo, que tão maravilhosamente dominava. Sua força maior, sua mais evidente demonstração de talento e cultura, residia, entretanto na oratória. Sua voz débil, sua postura serena e comedida, não impediam que sua eloqüência fosse reconhecida e proclamada. Ninguém terá escrito mais delicadas homilias, mais substanciosos sermões, mais empolgantes discursos. Rara a festa religiosa daquela época, na Cidade, na Capital ou no interior, se fazia, que não fosse, insistentemente, requisitada a palavra de Loureiro. Apesar de todas essas qualidades, por isso mesmo, as altas esferas, jamais lhe fizeram justiça. O titulo de cônego, tão fortemente distribuído, nunca lhe chegou às mãos. Vítima de incompreensões, calúnias e insídias, ao contrario veio a sofrer censura e castigos. Sem o menor motivo, contra a vontade da população, arrancaram-no da freguesia, que tanto amava. Levaram-no, a princípio, para Salvador, para dioceses pobres e incapazes de sustentar o seu vigário. Atiraram-no, posteriormente, pelo sertão a dentro não raro em regiões inóspitas, quando não dominadas pelo famigerado Lampião. Acompanhado sempre pelas duas Santas irmãs, sem revolta, sem protesto, humilde e submisso, pobremente palmilhou os passos dolorosos sua via crucis. Até que seus leais amigos políticos, não podendo suportar tanta injustiça conseguiram trazê-lo para o lugar devido. Desnecessário dizer que sua volta foi um dia de festa para todos. Extraordinária, porém, foi sua consagração pelas Bodas de ouro do seu sacerdócio, a 2 de fevereiro de 1962, quando a cidade em peso, dos mais grandiosos aos mais modestos cumularam-no com um mundo indescritível de homenagens.
Confortado, feliz com tanta provas de carinho, compreensão e afeto, infelizmente, já não era o mesmo. Desaparecera-lhe o sorriso bom e contagiante, a verve no contar casos, de vezes patuscos, mas, no fundo ingênuos. Ferido, nos mais puros dos seus sentimentos, não sanadas as mágoas e as amarguras da insídia, da inveja e da calúnia, cumpria, apenas, os atos religiosos, com a disciplina e veneração de sempre. Não era mais o famoso orador do ‘2 de Fevereiro’, o guia consagrado das Semanas Santas, o sacerdote querido e adorado por todas as crianças. Apagados, foram pouco a pouco, sua alegria de viver e o fulgor das suas palavras. Anulavam-se, assim, as qualidades todas do seu espírito de exceção.
Veio a falecer, em meus braços, a 20 de Janeiro de 1965. A última homenagem que lhe prestei, Santo Amaro cobriu-se de luto, com lágrimas nos olhos e profundo pesar de todos os que contrita e comovidamente acompanharam o seu sepultamento. Jamais, no entanto, seus irmãos santamarenses se esquecerão do pároco de maneiras simples e bondosas, do homem desprendido de luxo e vaidade, igual a todos que o procuravam. Terá morrido na lembrança da cidade, o Padre Loureiro, probo, digno e respeitável; viva, porém, ficou, na consciência e na alma dos que o conheceram e com ele privaram, a imagem singular do Padre Zezinho, querido, admirado e idolatrado. Tanto assim que há poucos dias, os amigos fiéis, transportaram, em cortejo reverente, seus restos mortais para o chão bendito da sua adorada Matriz, lugar de onde jamais poderia ter saído”.
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DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE SANTO AMARO
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Nesta noite solene, da qual ainda não me fiz compreender o merecimento, visto que não me julgo com os mesmos olhos benevolentes dos meus pares, cabe-me, inicialmente, agradecer a eles a honra de fazer parte desta casa. Gratidão que extensiva a todos que comigo percorreram a estrada que vislumbro ao olhar a minha caminhada até o presente instante.
A indefectível fé em Deus faz-me elevar estes agradecimentos a um plano superior, trazendo-os de volta a esta dimensão em certeza de ser sempre apequenado qualquer agradecimento feito à minha mãe, aqui presente, minha primeira alfabetizadora, uma vida dedicada à educação dos filhos e dos alunos, sempre regendo pela pauta do amor; bem como ao meu pai, ausente fisicamente, por circunstâncias, mas sempre presente pelo exemplo de homem que em mim, de forma indelével, inseriu. Ele, uma pessoa sempre ávida pela leitura. A eles devo a minha paixão pelas Letras! Herança bendita!
E partindo da origem para o originado, agradeço aos meus filhos, fontes de alegria e rejuvenescimento, certeza de continuidade perpetuada! As mais belas obras da minha existência! A possibilidade de tornar real a abstração que chamamos Amor!
E não poderia eu deixar de prestar a minha homenagem àquela pessoa que, pela primeira vez, me fez sentir que aquilo que eu escrevia poderia tocar o coração e a alma das pessoas. Aquela que pela primeira vez me chamou de “meu poeta”. Minha prima, para sempre amada, Hercília Maria Aguiar Valladares. A minha Ciloca!
E discorreria eu aqui infinitos agradecimentos, no entanto prefiro utilizar a figura de uma única pessoa, a professora Magali Maia de Jesus, hoje Magali de Jesus Mendes, que me acompanhou da então 5ª Série do 1º Grau até o 3º Ano do 2º Grau, do Colégio 2 de Julho ao Colégio São Paulo, para agradecer a todos aqueles que, de uma forma ou de outra me fizeram abraçar o entusiasmo pelas Letras.
Agradecimentos feitos, aproveito-me da boa vontade dos presentes para, diante de todos, colocar-me à disposição desta Casa, que ora me acolhe, para, dentro daquilo que sei fazer, oferecer a minha dedicada participação no intuito de, cada vez mais, transformar em ação os objetivos para a qual foi criada, preservando a memória e difundindo as Letras, mas também sem esquecer da necessidade de estar sempre com a visão voltada para as mudanças que ocorrem na nossa sociedade, abrindo, assim, as perspectivas para um belo porvir.
Sem que haja mais nada que possa, neste instante, superar, em palavras, a emoção que sinto, calar-me-ei, seguindo o conselho do grande poeta da nossa Língua:
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NÃO, NÃO DIGAS NADA

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

(Fernando Pessoa, 05/06-02-1931)


Marco Aurélio Valladares Souza
Santo Amaro, 14 de dezembro de 2007
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

DEVANEIOS SÃO APENAS ISTO: DEVANEIOS!

DEVANEIOS SÃO APENAS ISTO: DEVANEIOS!

A LUA E A CIDADE


A lua boiava no infinito estrelado e, abaixo dele, a cidade dormia tranqüila. Dali, da janela do sétimo andar, ele podia vislumbrar, até mesmo, o mar, embora distasse uns seis quilômetros.
Mentalmente, cantarolava um trecho da música de Rita Lee: “As luzes da cidade, não chegam às estrelas, sem antes me buscar...”. Amava música, mas havia tempo que não se animava a por um CD para tocar. Quando descobriu que Zélia Duncan havia regravado aquela canção, não hesitou em comprar o álbum. Gostou da gravação, embora ainda preferisse a original, que guardava, zelosamente, em um compacto duplo.
“Num apartamento, perdido na cidade, alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar...”. Aquela frase caia-lhe como uma luva. Ele, realmente, se esforçava para tentar acreditar numa melhora. No entanto, a desesperança teimava por rondar-lhe a vida, a alma. “E, na medida do impossível, tá dando pra se viver...”.
Desde cedo a canção não lhe saia da cabeça e, cada vez mais, lhe tomava as entranhas físicas e emocionais. “O amor é imprevisível como você... E eu... E o céu...”. Apesar de gostar tanto dela, aquela presença ininterrupta já o estava irritando.
A lua boiava no infinito estrelado e, abaixo dele, a cidade dormia tranqüila. Dali, da janela do sétimo andar, ele podia vislumbrar, até mesmo, o amor, embora distasse uns seis meses. Mentalmente, continuava a ouvir Rita e Zélia cantando sem parar: “Conquistando o céu, desprezando o chão...”. Havia algo para ser conquistado, porém, fugia-lhe o que poderia ser. Conquistar o quê?
E por que aquela música não lhe abandonava? Que mensagem havia naquela letra da titia Lee? O que ele não decodificava? Olhando a lua a boiar e a cidade a dormir, passava mais uma noite insone.
No meio da madrugada, após repassar, por dezenas de vezes aquela letra de música, conseguiu, finalmente, entender o que ela lhe queria falar. Agora a mensagem estava clara! Agora ele sabia o que ainda podia ser conquistado.
Não era ela, a letra da música, a quem ele deveria se apegar. O que trazia a conquista final, a conquista da liberdade e da paz, era o título!
Olhou a lua e a cidade, apagou o cigarro no cinzeiro e sorriu pela derradeira vez. Boiou no espaço, como a lua e dormiu em paz na cidade tranqüila. “Da janela do sétimo andar...”.
Ah, sim: a música se chama “Lá vou eu”.

Para Aroldo Daniel dos Santos, com saudade!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

DELÍRIO (OLAVO BILAC)


Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem,
quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem!
- disse ela, louca.
Moralistas, perdoai! Obedeci...

domingo, 9 de dezembro de 2007

ORGULHO E GRATIDÃO II

Defendo o CETS por que amo o que esta Escola faz!
"Eu acredito é na rapaziada!..."

( http://www.cetsampaio.com.br )

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

2004 - O ANO DA PHŒNIX - NOVO PONTO DE PARTIDA!

DIVAGAR DEVAGAR

- A solidão sempre foi uma boa amiga. Visita-me muitas vezes, mas sabe respeitar quando quero estar só. (03-04/12/2004)
- Amar dói bastante. Não amar dói mais ainda. Então, amemos! (03-04/12/2004)
- O hoje nem sempre será o ontem do amanhã. Então, viva o hoje. Viva! (03-04/12/2004)
- Será que eu vou gostar de mim no dia em que conseguir me conhecer? (03-04/12/2004)
- Nem sempre as coisas são o que parecem ser. Nem sempre que parecem ser, as coisas o são. Nem sempre são, o que as coisas parecem ser? (03-04/12/2004)
- Alguns duvidam da existência de Deus. Outros, negam. Acho ótimo levantarem estas questões, pois o que não é debatido é esquecido. (03-04/12/2004)
- A minha questão com as religiões formais é o fato de todas falarem do mesmo Deus e não serem uma só. (03-04/12/2004)
- Prefiro tomar ré médio a sentir dó de mi. (03-04/12/2004)
- Eu sou tudo que, um dia, todos saberão que nunca fui. (03-04/12/2004)
- O que realmente importa: O destino, o caminho ou o caminhar? (03-04/12/2004)
- Existe coisa mais estanha do que a morte: a vida. (03-04/12/2004)
- Vida após a morte é algo incerto. Morte, após a vida, é “batata”. (03-04/12/2004)
- Não levem tudo que eu escrevo a sério. Apenas o que vocês não entenderem. (03-04/12/2004)
- Dizem que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Quando me fez, ou estava num tremendo mau humor ou num bom humor terrível! (03-04/12/2004)
- Sou doador. Só não sei se vão poder aproveitar grande coisa! (03-04/12/2004)
- No meu epitáfio escrevam apenas: Sejam felizes! (03-04/12/2004)
- Brinco com as coisas sérias porque me faz bem. O chato é que, muitas vezes, acabo levando as brincadeiras a sério. Aí, danou-se! (03-04/12/2004)
- Se na próxima encarnação eu vier pulga, vou me divertir pra cachorro! (03-04/12/2004)
- O pecado e o Estado são as mais incríveis criações do homem. Duas coisas que ele criou para sentir o gostinho da transgressão! (03-04/12/2004)
- Se você não souber rezar, cante. Se souber, cante também! Música é a voz de Deus. (03-04/12/2004)
- Toda verdade tem sua dose de mentira. E vice-versa. (03/04 - 12 - 2004)
- Às vezes, muitas vezes, me sinto sozinho, tão sozinho, que dá vontade de pedir aos céus para permanecer acordado. Mas de que vai adiantar não dormir e sonhar se, estando acordado, vou estar, ainda, sozinho? (03-04/12/2004)
- Às vezes, muitas vezes, me sinto sozinho. O jeito é acostumar! (03-04/12/2004)
- Noite, oh noite; tu que fostes por toda a vida o meu afago, porque, tão de repente transformaste-se em meu açoite? (03-04/12/2004)
- Eu só queria ser feliz. Agora, me bastava um pouco de paz. Tentei morrer e não morri. Deve haver uma razão para ter permanecido vivo; não deve ser só para sofrer deste jeito. Preciso de uma luz, por menor que seja, que me clareie os pensamentos, que afaste esta sombra que, por vezes, me faz olhar o fim como solução. Sei que tenho muitas razões para dar continuidade à benção de estar vivo, mas, às vezes fraquejo. Travo, hoje, uma luta ferrenha com a dama da foice. Por hoje, acredito ter vencido. Mas, e amanhã? Não é falta de fé em Deus, não é falta de amor aos que me querem bem. É um impulso insano, violento, irracional. Não são todos os dias assim. Mas dias como o de hoje são, para mim, uma batalha que me exaure, me fragiliza demais. Mas, com o amor dos meus e a graça de Deus, eu hei de vencer. Mas ainda choro demais... (06-07/12/2004)
- Se arrependimento matasse o erro, o perdão ficaria desempregado? (06-07/12/2004)
- O brasileiro nunca vai encontrar a sua identidade enquanto procurá-la na carteira. (07-08/12/2004)
- Será possível comprar a linha do horizonte num ar marinho? (07-08/12/2004)
- Era filatelista, mas detestava sê-lo. (07-08/12/2004)
- Corro riscos sublinhando as palavras. (07-08/12/2004)
- Passamos uma vida inteira estudando para descobrir que não sabemos nada. (07-08/12/2004)
- O trabalho enobrece o homem. O que o empobrece é o salário. (07-08/12/2004)
- Pode até parecer viadagem, mas entre tantas noites com a insônia, eu preferia umas poucas nos braços de Morfeu. (08-09/12/2004)
- Já estou sem paciência comigo! Eu apareço em todos os lugares para onde vou. Que saco! (08-09/12/2004)
- Cada um tem uma cruz para carregar. Até aí, tudo bem. Mas será que dava, pelo menos, para alguém me dizer para onde é que eu levo a minha? (08-09/12/2004)
- Tem momentos em que eu gostaria de ter alguém para ficar conversando fiado, falando “abobrinhas” por horas a fio. O problema é que, nestes momentos, todo mundo que eu conheço já está dormindo. Acho que nasci no fuso horário invertido! (08-09/12/2004)
- Tenho passado tanto tempo solitário que corre o risco d’eu achar que o espelho é uma multidão! (08-09/12/2004)
- Do jeito que as coisas vão, o meu anjo da guarda vai ter uma estafa a qualquer momento! (08-09/12/2004
- (. . . - - - . . .) Quem entender, seja breve. (08-09/12/2004)
- Toda vez que eu tento falar ou escrever sobre o que estou pensando, acabo escrevendo ou falando o que eu entendi do pensamento; nunca o pensado. (29-30/12/2004)
- As crianças são maravilhosas! Mas seria mais fácil criá-las se viessem com manual e botão de desligar. (29-30/12/2004)
- A pior coisa que um homem pode fazer ao relacionar-se com uma mulher é tentar entendê-la. E a melhor coisa que ele pode fazer é não tentar se explicar. (29-30/12/2004)
- Acredito em tudo! No entanto, isto não me impede de duvidar das minhas crenças. (29-30/12/2004)
- A pior coisa que pode acontecer a um artista é produzir sua obra prima. O futuro fica completamente banal. (29-30/12/2004)
- Não sou artista. Apenas dou formas aos meus devaneios; seja escrevendo ou desenhando. Eles sim, são artistas admiráveis. (29-30/12/2004)
- A arte não está no que o artista produz. Ela reside nos sentidos de quem a observa. Sem o observador não há arte nem artista. (29-30/12/2004)
- Bata na porta antes de entrar; não bata a porta ao sair. Enquanto estiver aqui, esqueça a porta. (29-30/12/2004)
- De médico e de louco, cada um tem um. Pouco! (29-30/12/2004)
- Nunca entendi muros de cemitério e muito menos os portões. Se quem está dentro não pode sair e quem está fora não quer entrar, pra quê muros e portões? (29-30/12/2004)
- Não leve a vida a sério. Com certeza ela também não lhe leva! (29-30/12/2004)
- Cuidado, companheiro! Cuidado com a paixão! Mais cruel que o amor, ela lhe invade com a sutileza de uma pena suspensa no ar para depois lhe esmagar com a fúria de um estouro numa manada de elefantes. O que sobra, jamais será você de novo! (03-04/01/2004)
- Toda pessoa é uma ilha. Umas têm pontes, outras não. As que têm, falam. As que não têm, pensam, pensam e alargam, cada vez mais, o oceano. Estou ilhado! (03-04/01/2004)
- Nada é mais bonito que o sorriso de uma criança. Nada é mais triste do que ser obrigado a ter saudade das suas. (03-04/01/2004)
- Tenho fumado demais. Tenho pensado demais. Tenho chorado demais. E eu que pensei que não tinha nada! (03-04/01/2004)
- Nunca consigo dormir cedo. Às vezes, consigo acordar cedo. Sempre acho bom pensar que antes tarde do que nunca, mas morro de sono durante o dia. (03-04/01/2004)
- O ‘nunca’ é o ‘sempre’ de mau-humor. (03-04/01/2004)
- Sob pressão, não consigo produzir direito. Sob depressão, só consigo produzir sob pressão. Aí, já viu... (03-04/01/2004)
- No Vietnã, de hippie a R.I.P. bastava um pequeno vacilo! Que desperdício de jovens! E até hoje... (03-04/01/2004)
- Vou tomar uma decisão definitiva! Mas não hoje... (03-04/01/2004)
- 3,1416 + 365 dias = instrumento de teclas percussivas. (03-04/01/2004)
- Tem momentos em que me bastava que alguém me oferecesse colo, cafuné e silêncio. Mas, se eu pedir, quebra o encanto. Então, continuo esperando. (03-04/01/2004)
- Musica! A melhor invenção de Deus. Só ela para fazer uma pessoa sentir-se viva. Viva a música! (03-04/01/2004)
- Já tive um monte de coisas que não tenho mais. Pelo menos, hoje, já não me fazem falta. Amanhã, não sei! (03-04/01/2004)
- Eu sempre sonho sonhos parecidos, quase recorrentes. Neles, tenho consciência de tudo que me cerca, de tudo que ocorre e, até mesmo, sei que é um sonho. Quando acordo, a certeza se esvai... (03-04/01/2004)
- Resolvi que, de agora em diante, eu mesmo tomo as minhas indecisões! (09/01/2004)
- Não tenho nada para esconder de ninguém. Tampouco me sinto obrigado a revelar nada! (09/01/2004)
- Não existe droga mais letal que a lucidez. Qualquer uso é overdose fatal. Mantenha-se vivo; mantenha-se louco! (10/02/2004)
- Passo noites em claro. Talvez seja para compensar a escuridão dos meus dias! (10/02/2004)
- Estou tão chato que vou acabar cabendo em um envelope. Caso isto ocorra, sele-o e despache pra longe de mim. (10/02/2004)
- O mais engraçado é ter consciência que a maioria dos meus fantasmas estão vivos! (10/02/2004)
- São tantos pensamentos que os meus neurônios já não conseguem fazer sinapse; fazem sinopse! (11/02/2004)
- Finalmente descobri que os meus fracassos amorosos não se deviam ao fato de querer ter alguém, mas de querer ser de alguém! (11/02/2004)
- Desafio o perigo diariamente. É sempre aconselhável conhecer de perto quem, um dia, pode vir a lhe eliminar. O inimigo desprezado desonra a vitória e torna toda luta vã! (11/02/2004)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

RESTO



Não busques me entender!
Nem decifra-me, nem devoro-te!
Nada do que trago oculto
Faz-me maior ou menor;
Faz maior ou menor o amor
Que a ti dedico e dedicarei.
Oculto está por ser meu
E de mais ninguém!
Ama-me, por que te amo!
Amo-te, por que existes!
O resto, bem diz a palavra,

É resto...

O JEITO BRASILEIRO (RODRIGO MACHADO MARTINS)


O debate sobre Luciano Huck e sua indignação com a violência no Brasil revela que, no geral, os ricos e os pobres reagem da maneira mais cômoda e conveniente em relação aos problemas sociais do país.
Os ricos apoiaram os ricos (no caso, Huck) e os pobres apoiaram os pobres (no caso, os bandidos). Acontece que essas visões simplistas podem gerar somente o caos social. Esse é o jeito brasileiro.
Primeiro, os endinheirados do Brasil estão querendo poder andar por aí esbanjando riqueza e luxo, na foram de jóias, roupas e carros caros, e não querem ser incomodados. Quando são, querem que a polícia extermine os marginais, como se fossem insetos vis (um exemplo disso é o próprio Luciano Huck, “convocando” o Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite).
Os criminosos podem até ser mortos ou ir para algum presídio superlotado, mas enquanto isso, vários outros marginais surgem, gerando um ciclo vicioso e, aparentemente, sem fim.
A atitude dos menos favorecidos também não contribui em nada para melhorar essa situação. Enquanto poderiam lutar por oportunidades e se revoltar, os mais pobres ficam em casa dando apoio aos bandidos, num exercício de algo que mais parece inveja dos ricos do que indignação, ou se tornam os próprios criminosos.
Mas, pior que tudo isso, é ver um pobre ganhar dinheiro e mudar, radicalmente, de opinião.Essa é a principal característica do povo brasileiro: o egoísmo. Os ricos têm de parar de se preocupar com seus Rolex e com seu poder para tentar dar oportunidades iguais a todos e os pobres tem que parar de escolher o caminho mais fácil ou de ficar em casa, vegetando e ir à luta. Caso contrário, o “jeitinho brasileiro de ser” nos levará à destruição.


Conheça mais sobre o autor em:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=7057212283745802730

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

NOVO DE NOVO

Esquece o cuidado com o diário;
Não prepare café, nem dê bom dia!
Ignore se tenho fome ou sede;
Despreze saber como fui no trabalho,
Se prefiro açafrão, cebola ou alho.
Não importa se durmo em cama ou rede;
Finja que não me vê há anos, e ria!
Esquece o cuidado com o diário.

Cotidiano, hábito, costume, rotina!
O mesmo palco por trás da cortina.
Mas somos dois a(u)tores versáteis,
Criativos, improvisadores, voláteis!
Escrevamos um novo texto para o hoje
E percamos a rima num verso novo!

ADIMENSIONÁVEL (MAÍRA VASCONCELOS)


Seria o temor da loucura
O que me força a hastear a bandeira da Imaginação
A meio pau?
Pois se o olhar-se no espelho anula a Noção
Do tridimensional,
Que pode a redoma das percepções afirmar
Sobre o fora-de-si?
O ver-ouvir-sentir: não mais que inter-ação.
{[( Ter-se por unidade -- eu => possa ser incoerente)]}
Estivessem os globos oculares para dentro...
* total * absorção *
Fujo
Procuro o eixo do que se convencionou por Normal
Encontro -- achamos...
-- Já vai dormir?
Fugir de um não-sei-o-quê para outro: Durmo.



SAIBA MAIS SOBRE MAÍRA EM:
http://www.espelhoabstrato.blogspot.com/

SEM TÍTULO (CHANDRA LASSERRE)


Subo devagar a ladeira que contorna a cidade,
sem me importar com as buzinas,
em silêncio, dessa vez.
Observo maravilhada uma esfera incandescente,
um circulo de ouro que inunda uma poça d'água, que vez ou outra é mar.
Sinto a paz do fim do dia e me intimido.
Sigo o rumo.
Acontece que viro uma curva e me deparo com uma esfera pálida,
um círculo gigante de prata governando o céu.
Sou dominada por uma súbita alegria e não paro mais de sorrir.
Lá está ela, linda, imponente, não deve em nada.
Adoro, adoro sempre.
Vejo tudo isso pelo azul envidraçado do dia-a-dia.
Toda essa mágica que me faz fazer poesia.


Conheça mais sobre a autora em:
http://senhoritalasserre.blogspot.com/

terça-feira, 6 de novembro de 2007

CASA PEQUENA

A minha casa será pequena.
Nela não caberá muita coisa.
Na sala, uma estante,
Para os discos, os livros
E, talvez, uma TV;
Vai ter, também, um sofá
Que caiba meu sono.
No quarto, uma cama,
Dessas bem grandes,
Pra eu me “espatifar”
De cansaço ou prazer,
Um som e um computador.
Em algum canto, onde der,
Uma rede onde eu possa,
Nos momentos de carência,
Me embalar e ninar!
Minha casa terá ventilador
Para os dias de calor
E, também, um telefone,
Provavelmente celular,
Cujo número poucos terão,
Mas que, mesmo assim,
Muitas vezes, manterei desligado.
Na cozinha, um fogão,
Uma geladeira, um filtro
E, quem sabe, um microondas.
Cinzeiros serão fundamentais,
Pois ainda estarei fumando.
Não haverão plantas,
Pois posso esquecer de regar.
Pronto!
Na minha casa pequena,
Onde não caberá muita coisa,
Moraremos a saudade,
A solidão e eu.
Mas, quem vier em paz,
será bem vindo.
Principalmente você!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

OKÊ ARÔ, SENHOR DAS MATAS! SALVE, JORGE DA CAPADÓCIA!


Não tenho mais o que temer. Minha armadura está quase refeita e meu corpo já sustenta o peso das minhas armas. Guerreiro da paz! Paradoxo necessário contra os dragões insanos que teimam em tentar queimar a lua cheia. Estou pronto para o bom combate. Àqueles que pensaram estar eu definitivamente combalido, tremei! Já campeio nuvens sobre meu corcel furta-cor e vislumbro o infinito. Tremei, covardes! Tremei almas traiçoeiras! Não tenho mais o que temer!

O vale das sombras da morte já ficou para trás e a mão que me guiou de volta à luz e à vida ainda pousa sobre a minha fronte. Com Ele derrotei a derrota e me reaprumei. Ainda preciso, às vezes, parar para lamber as feridas, no entanto, elas já não doem tanto. Já não me impedem de lutar.

Meu cavalo de batalha já está encilhado e me acompanha nesta jornada. Corcel destemido, animal de boa monta, sustenta sem fadiga a mim, minhas armas e minha vontade de seguir. E vamos seguindo avante. Na trilha do sol, da nascente ao poente; invadindo a noite e garantindo o sono leve dos inocentes. Armas ornadas com peças da minha orada. Minha oração e minha fé não têm fronteira, título, preconceito, condição.

Tremei, covardes! Tremei almas traiçoeiras. Sigo ao lado de quem também se armou para a caça; de quem também se armou contra os dragões. Nesta companhia nada me deterá. O dono do arco, o dono da lança, abre os caminhos por onde vou, levanta os meus olhos para o certo e para a certeza. Vem a mando de quem ainda pousa a mão sobre a minha fronte.

Cavaleiro imperfeito, busco seguir as picadas de quem conhece os perigos do mato, onde é senhor absoluto, as pegadas daquele que cavalga fácil numa cruzada eterna. Assim, como terei o que temer? Guerreiros da paz (Paradoxos para quem se prende à razão fria e esquece de escancarar o coração), caminharemos os descaminhos, iremos quando teimarem em voltar, sorriremos para o perigo iminente e seguiremos. Abraçaremos todos os sorrisos que se abrirem à nossa passagem e combateremos no bom combate.

O que me levou me trouxe. O que me trouxe, me mantém. O que me mantém me leva adiante. E não adianta mais tentar me atingir. As armas dos malditos contra eles se voltaram. Não há fogo que queime, muralha que obstrua, lama que atole, espinho que fira quando vierem de quem tenta pungir pelo desamor.

Agora tenho calma e paciência. Aprendi a recuar para melhor ver o inimigo e atacá-lo se inevitável for. Mas sei que é melhor lutar contra o erro e não contra quem erra. E aí está o segredo de guerrear pela paz. No entanto, infeliz de quem vislumbrar fraqueza na paciência do caçador, na estratégia do guerreiro. Este desventurado estará avançando contra o que não conhece. Este busca enxergar o que não pode ser visto, ferir o inatingível, agarrar o inalcançável, vencer o invencível. Este se autodestruirá, refletindo no escudo do cavaleiro o mal que retornará sobre si; fazendo da própria perfídia o seu fim.

O vale das sombras da morte já ficou para trás e a mão que me guiou de volta à luz e à vida ainda pousa sobre a minha fronte. Com Ele derrotei a derrota e me reaprumei. Ainda preciso, às vezes, parar para lamber as feridas, no entanto, elas já não doem tanto. Já não me impedem de lutar.

Não tenho mais o que temer. Minha armadura está quase refeita e meu corpo já sustenta o peso das minhas armas. Guerreiro da paz! Paradoxo necessário contra os dragões insanos que teimam em tentar queimar a lua cheia. Estou pronto para o bom combate. Àqueles que pensaram estar eu definitivamente combalido, tremei! Já campeio nuvens sobre meu corcel furta-cor e vislumbro o infinito. Tremei, covardes! Tremei almas traiçoeiras! Não tenho mais o que temer!

A benção a Quem dá a benção! Sustenta Tua mão sobre esta fronte! Adupé-Lewô-Olorun!

Aos companheiros de batalha, a minha saudação: Okê Arô, senhor das matas! Salve, Jorge da Capadócia!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

SONHO


Ser teu:
......................Amigo...
.....................................................A qualquer momento;
......................Colo...
.....................................................Quando queiras;
......................Ombro...
.....................................................A qualquer lágrima;
......................Companheiro...
.....................................................Quando lhe for propício.

Ser teu!
Sonho...

Ser teu sonho!
Sonho...

Ser teu!
Sonho que realizo
Em sonhos.

Sonho em ser teu!

Em sonhos, sonho a realidade
Que a realidade desfaz.

Ser teu...

Como eu quero...

Ser teu:
......................Amigo...
.....................................................A qualquer momento;
......................Colo...
.....................................................Quando queiras;
......................Ombro...
.....................................................A qualquer lágrima;
......................Companheiro
.....................................................Quando lhe for propício.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

AH, TEMPO!

No sentimento em que vive
Este eterno sonhador,
Não há tempo,
Não há tempo,
Não há tempo...

Não há tempo a perder...
Pois preciso estar com você agora!

Não há tempo a contar...
Pois com você esqueço as idades!

Não há tempo a temer...
Pois com você não temo temporal!

Não temo o temporal dos ventos...

Não temo o temporal dos dias...

Não temo o temporal dos ouvidos...
Surdos de sua voz que amo,

Assim como cego estou de
Não poder te ver comigo...

E como estive paralítico
Por não poder tocá-la...

E como tudo é tempolábil
E por não negar-me;

E por não negar-te;
Digo então em hábil tempo:

No sentimento em que vive
Este eterno sonhador,
Há tempo,
Há tempo,
Há tempo...

TIC-TAC

O relógio parado na parede
Insiste que o tempo não para
E faz um tic-tac irritantemente
Parecido com o bater do meu coração.

E ele bombeia, involuntário...

E o pulso pulsa, involuntário...

A parede parada...
O tempo passando...
O tic-tac do relógio...
O pulso que pulsa...
O bombear do coração...

E eu aqui, parado,
Olhando a parede
Em estática compulsão...

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac…

O relógio está inteiro.
Em mim, falta um ponteiro!

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

YU-GI-OH; PARÂMETROS X PRECONCEITOS



“Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu...”; “O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada...”; “Boi, boi, boi, boi da cara preta, pegue essa criança que tem medo de careta.”. Não serão estes, exemplos de atitudes erradas que, sem a devida orientação, podem levar a criança a encará-los como normais e passíveis de serem executados?
Não seria o “bicho-papão”, ser amorfo e subjetivo, um terrível “demônio” a povoar os pesadelos infantis?
Também a ignorância sobre as diferenças culturais não seria um incentivo ao preconceito? Ignorância que, ainda hoje, faz com que muitos encarem o orixá Exú como sendo a mesma coisa que o diabo da cultura judaico-cristã ocidental? Uma análise rápida e simples, baseada em paralelos históricos, mostra que Exú está muito mais próximo da figura de Hermes (ou Mercúrio) da mitologia greco-romana, que do “tinhoso” ocidental.
Ao necessitar fazer uma equivalência entre os seus orixás e os santos católicos impostos pelo “senhor branco”, os negros escravizados (desconhecedores da mitologia religiosa dos portugueses) encontraram naquela figura com corpo de homem e pernas de bode, a imagem ideal para representar o mensageiro dos deuses, que devia ser esguio e ágil (como Hermes, que tinha asas nos pés!).
Assim, faz-se, também, necessário conhecer um pouco sobre os chamados “demônios” (palavra dúbia, que sofre interpretações errôneas, sobre a qual o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, já na sua edição de 1958, explica como gênio bom ou mau que, segundo as crenças da antigüidade, presidia o destino de cada homem ou Estado). O Yin e o Yang são forças opostas e complementares, como o bem e o mal, o masculino e o feminino, o positivo e o negativo, a construção e a destruição, a vida e a morte. Desta forma, quando uma criança, ao jogar com as cartas de “Monstros de Duelo” que possuem poder destrutivo, não está, necessariamente, invocando forças do mal.
Quando um personagem de desenho animado de origem oriental invoca um “demônio” como o Dragão Branco de Olhos Azuis, que tem o poder de emitir raios destruidores contra um oponente maligno, ele busca a força deste “demônio” em prol da salvação de um interesse benigno (como libertar o avô aprisionado pelo vilão ou conseguir o dinheiro do prêmio do duelo para a cirurgia da irmã doente).
Difícil de entender? Então busquemos um exemplo mais próximo da nossa cultura. Substituamos o personagem oriental por Moisés, o oponente maligno pelo faraó egípcio e o dragão pela praga de gafanhotos. São as mesmas atitudes, vistas por culturas diferentes. Ou seria Moisés um ser “do mal” por invocar os gafanhotos?
Orientar crianças faz de cada um de nós, pais e/ou educadores, responsáveis por buscar conhecer as diferenças culturais e a saber explicá-las, da melhor maneira possível, conforme a idade de cada criança. Somos os responsáveis por um País sem preconceitos e ciente da diferença entre crendice e fé, fazendo das nossas crianças, adultos com discernimento e espírito democrático. Talvez seja esta a melhor justificativa que se possa dar para “porque estudamos História”.
O bem e o mal, o lobo mau e o caçador, o anjinho e o diabinho (um em cada ombro), o bandido e o mocinho; são todos a mesmíssima coisa, tendendo, a criança, a torcer pelo lado a que for orientada a identificar como o certo. Com exemplos e, principalmente, com atitudes dos adultos.
Diz Baruch Spinoza (em O Pensamento Vivo de Spinoza) que “As palavras bom e mau são empregadas em um sentido relativo; e a mesma coisa pode ser boa e má, segundo os aspectos sob a qual a consideramos (...) Quanto ao mau e ao bom, não indicam nada de positivo nas coisas. São apenas modos de pensar ou noções que formamos, porque comparamos as coisas entre si”.Portanto, o perigo às nossas crianças não se oculta em “cards” ou “games”, nem em desenhos animados ou revistas em quadrinhos. O perigo está em permitir que a ignorância, a falta de diálogo e o abandono gerem adultos sem parâmetros.
Escrito em 2002.

domingo, 7 de outubro de 2007

ORGULHO E GRATIDÃO!

Defendo o CETS por que amo o que esta Escola faz!
"Eu acredito é na rapaziada!..."

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

PROTESTO E MOBILIZAÇÃO!


O CENTRO EDUCACIONAL TEODORO SAMPAIO (CETS), colégio da rede estadual de ensino, em Santo Amaro/BA, com 50 ANOS DE EXISTÊNCIA, está sob AMEAÇA de DESAPARECER!

Palco de projetos educacionais e culturais como a Feira de Literatura Infantil, Escola de Música, Banda Marcial, Domingo Cultural (em seu décimo ano de funcionamento) e um dos mais bem aparelhados da região, o CETS pode fechar!

Não por vontade de alunos, funcionários e professores (pois serão desalojados!), mas pela inescrupulosa sede de poder de um grupelho político comandado por um ex-deputado federal (filho da cidade, ex-aluno e ex-professor do CETS) que querem desalojar 50 anos de história para fazer a sede provisória da Universidade Federal do Recôncavo Baiano em Santo Amaro.

A UFRB é muito bem vinda ao Município e é um anseio antigo da população santamarense (e a sua vinda já é certeza!). Mas não se despe um santo para vestir outro. Principalmente quando se sabe que o CETS é uma referência educacional no Recôncavo.

Peço a quem ler esta mensagem que a repasse para todos os seus amigos, mesmo que não esteja em Santo Amaro ou até mesmo na Bahia. A luta pela preservação da história da educação pertence a todos!

Sim à Universidade, mas com UM SONORO NÃO À SANHA DOS APROVEITADORES.


Muito obrigado.

Marco Valladares - Santo Amaro/BA

sábado, 29 de setembro de 2007

“APRENDI A FICAR QUIETO E COMEÇAR TUDO DE NOVO”


Quando Danilo pediu-me para fazer um texto sobre Raul Seixas, não vacilei. Tranqüilo!
Depois, em casa, percebi que tinha entrado numa fria. Escrever o que sobre Raul que todos que gostam do cara ainda não saibam? Marquinho, meu velho, você se ferrou! Feio!
Depois de muito matutar, resolvi, então, falar do ‘meu’ Raul Seixas. O Raul que conheci através do meu pai, que, animado com a compra do primeiro ‘stereo’ da família, desandou a comprar discos. E dentre a primeira leva de LPs estava “Krig-ha bandolo!”. Aquela figura esquálida dividindo a capa com o grito do Tarzan já era, por si só, capaz de despertar o interesse do garoto que lia os livros de Edgar Rice Burroughs.
Já na abertura do ‘lado A’ estava aquela gravação do menino Raulzito, seguida daquela ‘coisa’ que sacudiu todos os meus neurônios. “Mosca na Sopa” entrou por cada poro daquele menino e preparou (será?) o espírito para o restante do disco. A partir de “Krig-ha bandolo!” eu nunca mais fui o mesmo.
Quando “Gita” chegou às minhas mãos eu já tinha me enfiado embaixo do chuveiro com um capacete de ‘pião de obra’ na cabeça. Tomar banho de chapéu já não servia. Entrava de capacete pra fazer “tudo aquilo que se faz dentro de um banheiro”.
E tudo virava realidade, já que o cara também sonhava os mesmos sonhos que eu. E a realidade ultrapassou os sonhos quando dei de cara com o cara bem em frente à minha janela! Plínio, o irmão de Raul, morava no prédio defronte ao meu, no primeiro andar de frente (Edifício Pio XII, Rua Manoel Barreto, Graça) e Raul estava hospedado lá! E o cara conversou comigo! Eu custei a crer!
Depois fui descobrindo coisas banais que, para mim, tinham um significado muito especial. O sujeito nasceu em 28 de junho e a minha mãe também. Era canceriano, como eu, e, na cabeça de um garoto de 12 anos, que também tinha nascido "‘Há Dez Mil Anos Atrás”, isso criava uma identidade maior com o ídolo. Quase uma intimidade distante.
Eu fui crescendo e as canções de Raul tomavam outra forma na minha cabeça. Era difícil não relacionar as letras dele com as coisas que passavam pela minha cabeça de adolescente. Fui um adolescente do Novo Aeon. Da ‘Era Raul’!
O tempo passou depressa demais e o cara morreu com “A Panela do Diabo” ainda quentinha. Sacanagem! Mas a morte pode ser o segredo dessa vida. E eu, tantas vezes um canceriano sem lar, continuei a ouvir Raul. E via novas gerações curtindo suas músicas.
E, por conta disso, dei de fazer amizade com um garoto que se tornou uma das pessoas mais importantes da minha vida: meu compadre (à vera!) Régis Calheira. E quantas vezes caímos na farra em plena segunda-feira (hoje é segunda-feira e decretamos feriado, chamei Régis Calheira e saímos lado a lado...). E foi com Reginaldo Contreiras (como eu o chamo, sei lá por que) que aconteceu um fato inusitado nas nossas vidas. Estávamos com uma galera tomando umas cervejotas na barraca em frente ao prédio que eu morava, no Largo dos 15 Mistérios, e cantávamos justamente "Maluco Beleza" quando notamos um sujeito parado junto à mesa. No fim da música ele se aproximou e pediu que nós o ajudásse-mos a voltar para casa. A casa era o Sanatório São Paulo, que ficava a uns metros dali, na Ladeira do Aquidabã. Ele era interno, saiu para passear e perdeu o horário de retorno. Um maluco querendo voltar para o hospício! E lá fomos nós, conversar com o porteiro para o maluco beleza poder entrar.
E foi em outro sanatório, o Ana Nery, que eu senti na pele o que dizia “Clínica Tobias Blues”, “sentado em minha cama, tomando meu café, pra fumar”! Tudo por conta de não saber, por instantes, se era hora de partir ou de chegar. Eu vi a moça com a sua mais bela roupa e tive a chance de ver “que a água viva ainda tá na fonte”.
Onde eu estou, agora, não há bicho papão e já não tenho “medo de sair da cama, à noite, pro banheiro”. Raul uma vez disse: “Deus é aquilo que me falta para compreender o que eu não compreendo”. Pra mim não falta mais! “Aprendi a ficar quieto e começar tudo de novo”!
Raul vive! Viva Raul!
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Publicado originalmente em 'O Grito' de Agosto/2007

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

INTITULADO (LAYRTTHON OLIVEIRA)




Ria que me encanta o teu sorriso,
E em meio ao tédio é-me uma distração,
Pudera eu ver um dia além do riso,
Quem sabe... ver também teu coração?

Nos teus olhos vejo alegria,
E no teu rosto vejo perfeição
Em traços encantadores. Pudera um dia
Eu ver também teu coração?

Inveja-te o sol, pois tens nos cabelos
Do que o do astro um maior clarão.
Se não me cegar a divina luz dos pêlos
Teus, pudera um dia eu ver teu coração?


Conheça mais sobre o autor em:
http://dimensaol.blogspot.com/

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

LENDO NA SUA CAMISA



Uma ‘T-Short’, tão comum, era o que você vestia
Quando me perguntou “sabes quem sou”?
E eu bem vi que te via, mas que nada, de ti, sabia.
E eu dei de ler, na sua camisa, o que nela não havia.
Lá eu via que a camisa escondia em si
Quase todo sentido que há nesta grafia.
Da camisa que reveste o milho,
Dava-me a cor da cabeleira
Que ao vento pairava vadia.
Também trazia a construção abstrata,
Sem taboado e sem reboco,
Qual a casa engraçada da poesia.
Se tem goma, camisa firme;
Se de pagão, traz inocência;
Se de dormir, camisa macia!
Ah, camisa de onze varas em que dei de me enfiar
Quando me perguntastes “sabes quem sou? ”
E eu dei de ler, na sua camisa, o que nela não havia.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

IMPUNIDADE JAMAIS! (RODRIGO MACHADO MARTINS, 15 anos)


A criminalidade na juventude das classes média e alta está cada vez maior e, muitas vezes, os pais dos jovens podem ser considerados cúmplices de seus crimes.
Quando um marmanjão endinheirado rouba, agride ou mata alguém por prazer, é porque ele se sente impune. E essa impunidade normalmente começa em casa, quando os pais mimam e deixam de punir seus filhos quando eles agem errado.
E quando os seus bebezinhos brutalizam nas ruas, eles os defendem loucamente.
Agem de maneira correta os pais que tentam cortar o mal pela raiz, dentro de casa. Mas estão corretos também aqueles que, após tentativas fracassadas de diálogo, deixam que a sociedade se encarregue de punir os seus filhos.
O Brasil precisa acabar com esse sentimento de impunidade por parte daqueles que têm mais dinheiro e poder. Se isso puder começar em casa, ótimo, mas aqueles que já têm consciência de seus atos e saem às ruas barbarizando, merecem sentir o peso da lei caindo em seus ombros.
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Conheça mais sobre o autor em:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=7057212283745802730

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

AUGUSTO E EU


SOLITÁRIO
(Augusto dos Anjos)

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços –

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

__________________________________

SOLIDÁRIO
(Marquinho Valladares)

O teu fantasma aqui ressurgia;
Na escuridão batia-me à porta.
Vinha, leve, nas asas da poesia,
A refugiar-me desta vida morta!

Fazia o mesmo frio que ali fazia;
Mas não era dos que a carne corta...
Uniu-se a mim em comborçaria
Como tua poesia que me conforta!

Tu vieste resgatar-me da Desgraça!
E dela saí, como quem sai da pele,
- Velho caixão a carregar meus ossos -

Tornando o mofumbal em arruaça;
O meu caminho não há quem tele.
Fim do ciscalho falsídico dos destroços.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

CONTINUA VALENDO!

- Não levem tudo que eu escrevo a sério.

Apenas o que vocês não entenderem.

(03-04/12/2004)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

POSIÇÃO RELATIVA (OU SOBRE COMO NÃO DEVEMOS LEVAR AS COISAS AO PÉ DA LETRA)

Queria eu ser sua sombra e sua luz;
Deitar sobre o concreto e o imaginário;
Mergulhar na profundidade da angústia que te abstrai.
Deitaria sobre ti, respeitosamente,
Para protegê-la seja lá do que for, ou que vier!
Juntaria todos os cacos;
Entenderia a sua língua;
Preencheria os teus espaços,
Fazendo cheio teu quarto minguante.
E mesmo que os olhos mais atentos nada distingam,
Minhas emoções estão cada vez menos obscuras.
Eu a entendo!
Tire os óculos!
A imagem embaçada me faz melhor justiça.
Finja que vai tirar uma foto,
Incline a cabeça pra direita e veja além...
Existem sim os campos floridos, bonitos...
E lá, um dia (ou noite) uma linda flor
Há de desabrochar!
Eu já a vi em sonhos
E mostrei às paredes do meu quarto!

RAUL & RITA - COLAGEM


Eu nunca cometo pequenos erros,
Enquanto eu posso causar terremotos...

Minha saúde não é de ferro, não,
Mas meus nervos são de aço,
Pra pedir silêncio eu berro,
Pra fazer barulho, eu mesmo faço...


Você é forte, faz o que deseja e quer,
Mas se assusta com o que eu faço,
Isso eu já posso ver;
E foi com isso, justamente, que eu vi,
Maravilhoso, aprendi
Que eu sou mais forte que você...

Mais um dia a menos,
Menos um sonho a mais;
Tanto faz, como tanto fez,
Deixe que eu viva
Em lúcida embriagues,
Deixe que eu passe por momentos
De prazer;
Mesmo que eu fique
Caçador de aventuras...


É chato chegar a um objetivo
Num instante;
Eu quero viver nessa
Metamorfose ambulante...

Baby, baby, não adianta chamar,
Quando alguém está perdido,
Procurando se encontrar...


Duas horas da manhã
Eu abro minha janela,
Vejo a bruxa cruzando
A grande Lua amarela
E vou dormir quase em paz...

Ai de mim, que sou romântico...

quinta-feira, 21 de junho de 2007

SEM VOCÊ, PASSO!

Sem você não dou mais um passo!

Sem você perco o compasso!

Sem você me perco no contrapasso!

Sem você vivo em descompasso!

Sem você, a mim repasso!

Sem você, a mim repasso!

Sem você, a mim repasso!

Sem você cometo sobrepasso!

Sem você, neste traspasso!

Sem você, sinto traspasso!

Sem você não dou mais um passo!

CAFONICE (EDUARDO ALVES)


Rasguei
Mil cartas que dariam
Boleros de sucesso, ah, rasguei
Queimei vinis 78 rotações,
Talvez assim exorcizasse canções
Que poderiam vir de mim mesmo,
Contaminadas de romantismos vis,
De tantos compositores febris,
Que eu jamais quis ser,
Que eu lutei pra jamais ser...

Cuidei,
De corações perdidos,
Escrevendo mil pragas e revés,
Pra quem do amor se utilizasse ao fazer sofrer
Pagasse o preço do insucesso e pudesse querer
Tentar outros refrões sem ilusão,
Livres de romantismos vis
De tantos compositores cruéis,
Que eu jamais quis ser,
Que eu lutei pra jamais ser...

Cafonice demais,
Sandice demais,
Falar de amor e de dor,
Misturar fel e sabor,
Deus me livrou desse patético expediente...
Se eu fosse um cafona dessa estirpe, assim,
Cantaria boleros rasgados,
E diria mesmo sobre mim,
O que atribuo aos outros, coitados...


Conheça mais sobre o autor em:
http://www.palavrasdeassalto.blogspot.com/

quarta-feira, 30 de maio de 2007

OLHOS NOS OLHOS (THAÍS ARAÚJO)


Palavras nada falam sem sentimentos
As letras não mais se fazem entender,
Tudo é tão obscuro quanto o infinito,
E tão claro como o ar;
Eu não me entendo, fujo de tudo,
O medo me alimenta e me cega.

Faz tanto tempo que nem sei.
O tempo parou?! Eu não notei?!
As palavras mudaram?!
Não encontro sentido em nada...
Onde foi que eu errei?
Onde foi que parei?
Quem eu era afinal?
Algum dia fui...?

Olhares, burburinhos, gostos e cheiros peculiares
O sangue que percorre através das veias volta ao frenético bombeio do meu coração.
Percorro caminhos, sigo deixando partes de mim
Me perdendo, me moldando, sendo e não sendo quem era.
Me olho em um pequeno espelho, meus olhos se olham.
Me encontro enfim!
00
Conheça a autora:

terça-feira, 22 de maio de 2007

INSÔNIA E AMANHECER

Avanço o sinal da meia-noite
E sigo madrugada a dentro
Sem me importar com os avisos
De pare/olhe/ouça.
Pouco importava que o trem
Das ilusões perdidas viesse
E atravessasse meu caminho.
No acelerador eu era mais eu;
No retrovisor, tudo o que não fui;
No pára-brisa, o que viesse
Seria o rumo a ser seguido.
Curvas e encruzilhadas,
Feitas no acaso do destino,
Todas me levando para lá,
Para onde eu sabia que,
Cedo ou tarde, iria encontrar
O sol da manhã mais nova.
Aí então seria o momento
De frear bruscamente os sonhos,
Abrir as portas para que
Os fantasmas madrugadores
Retornassem à sua dimensão
E eu, desligando o motor,
Matasse o devaneio quase real
E enterrasse o herói que nunca fui.

terça-feira, 15 de maio de 2007

DESEJO


Depois de tanto desejar-te
Em um sonho acordado,
Durmo abraçado ao vazio
E desperto satisfeito
Por um sonho molhado.
É imensa a falta que faz
O seu corpo junto ao meu!

SOTURNO 2

A neblina que envolve a cidade
Traz uma atmosfera de filme noir;
Caminho fingindo sentir o calor
Na minha mão ao segurar a sua.
O plenilúnio por de trás do fog
Deixa um clarão de lusco-fusco no ar
E eu sigo sozinho, caminhando à-toa;
Cachorro, vadio na noite, uivando pra lua!

sábado, 12 de maio de 2007

ENTRELINHAS (KELLYENE COELHO)


"Intenso, lascivo e verdadeiro teu cheiro permanece em mim como uma marca bruta do meu querer". (Kellyene Coelho - 23 anos, ariana, apaixonada por poesia, pela vida e suas entrelinhas.).

Conheça essas entrelinhas em:

segunda-feira, 30 de abril de 2007

VISITANTE

Hoje, fiquei escutando canções
Que nunca ouvi junto com você,
Mas que são nossas canções.
E embarquei numa viagem boa
Por uma cidade que nunca fui;
Andando por ruas que nunca vi;
Até que cheguei em frente à casa
Onde sei que você espera
Que eu nunca bata à porta.
Assim o fiz, parado, olhando,
Esperanto que num momento,
Ao menos por um instantinho,
Você aparecesse na janela
E sorrisse este sorriso lindo
Sorrido apenas por você!
Cada canção trazia-me, então,
Um jeito de, ali, te esperar.
Melancólico, no compasso do blues;
Ansioso, em um rock oitentista;
Tenso, numa balada de amor;
Feliz, em todas as canções.
Você não veio à janela ver
Que eu estava a te esperar;
Mas pude ver, no seu jardim,
Uma flor em botão desabrochar.
Reguei-a com lágrimas de amor
E desliguei o som e o sonhar.
Hoje, fiquei escutando canções...

sexta-feira, 13 de abril de 2007

O LUNÁTICO E A SELENITA




A Lua, cheia, clareava teus olhos negros,
Criava mágicos e belos cachos azuis
Na cortina encaracolada que,
Quase sempre, teimavas em prender.
Mas, naquela hora, como que
Para ampliar o impacto do momento,
Estava livre como um anum ao vento.
A Lua testemunhou você dizer que
Em poucas luas de volta estaria.
Você deu meia volta após um beijo inteiro
E seguiu seu caminho sem mim, sem fim...
Passaram-se todas as luas,
Todas as ruas, tudo.
A solidão enchendo meu lado agora sem luz,
Enquanto meu outro lado, por natureza escuro,
Fazia-me minguar, sem te ver,
Te encontrar, em quarto nenhum.
Fiquei sem prumo, sem rumo, sem rota.
Não havia aprendido a girar em torno
De outra Terra, de outro Sol,
De outra estrela.
Perdi o chão, a luz, o brilho.
Hoje, nos meus descaminhos,
Evito noites enluaradas,
Com ares de idas, despedidas,
Vidas perdidas.
Busco sempre noites sombrias,
De luas novas,
Onde qualquer vulto envolto em negrume,
Oculto por onduladas mechas, mexa comigo,
Me fazendo-me sentir,
Além dessa saudade imensamente absurda,
Uma réstia de esperança!

O TREM DE SANTO AMARO

Lá vem o trem,
Apitando na curva do Bonfim,
Logo após o entroncamento;
Um apito longo e tristonho,
Com jeito de lamento.

Lá vem o trem,
Apitando na reta do Cigano;
Indo certo pra estação.
Apita chamando o povo
Pra embarcar no seu vagão.

Lá vai o trem,
Vai embora solitário,
Sem levar um passageiro.
Apita ao longe, saudoso
Dos tempos que levava
Nosso povo pra Bahia,
Lá pras bandas da Calçada.

Lá se foi o trem...
..............Lá se foi o trem...
............................Lá se foi o trem...
..........................................Lá se foi o trem...
........................................................Lá se foi o trem...
..................................................................................Lá se foi...

terça-feira, 10 de abril de 2007

CANÇÃO DE ALMAS (SANDRAH)


Tarde de sol
Nossos corpos
Se encontram
telepaticamente
Carícias avassaladoras
Beijos intensos
Mansos serenos
Nos entrelaçamos
Tenho você em mim
Te arranho
Te grito
Desejo infinito
Nos amamos
Com mansidão e sofreguidão
E num gozo sem limites
Nos perdemos por segundos
E nos achamos na loucura
Desejo e amor se misturam
E nos abraçamos loucamente
Com doces carícias, relaxamos
Corpos suados
Cheiros se confundem
E nesse silêncio
Ecoa a canção de nossas almas
Canção de amor e desejo.


In ‘Recanto das Letras’
http://www.recantodasletras.com.br/autores/sandrah

FUTRICA

Ômi, sinhô mi dêxi,
Qui aquí ninguém arrepete
Nem por paga nem por di graça
O que onti se assucedeu,
Por conta di atraí a tar tragéda,
Prima-irmã da tar disgraça.
Mas lhi dô, pra sua idéa,
Qui foi logo ali ninfrente,
Donde tá aquela práca,
Qui Ocride, cabra valente,
Vortô mais cedo e incontrô
Sua santinha lhi ponhano
Um baita dum chapé di vaca.
Num contô nem déis nem trêis;
Já no um, cortô os dois
No táio di sua faca.
Mais nun conto, seno sincero,
Pois num cabe in minha boca
O qui di minha conta num é.
E aqui pru essas banda,
Hômi, sim sinhô,
Dedo-duro mórri impé.
Inda tenho o qui vivê
I num posso arriscá.
Vai qui o corno fugido
Com minha pessoa, intão,
Cisma e fica aperriado!
Quar síria o meu distino?
Findá na ponta da faca!
Ô pió...
Morrê chifrado!

quinta-feira, 29 de março de 2007

PASSATEMPO


Passa o tempo.
Passo o tempo
Passo a passo
E o passo do tempo
Passa ao tempo
Qu'eu passo.
Passo o tempo.
Passa o tempo
Passo a passo
E ao passo do tempo
Passo o tempo
Qu'eu posso.
No compasso do tempo
Passo descompassado,
Pensando que posso
Passar ao tempo.
Passar o tempo
Passo a passo
É o que posso.
Passa o tempo.
Passa o qu'eu posso.
Ao passo do tempo
Passo,
Passo,
Passo,
Passo...

ZORRA DE VIDA

Soltando farpas,
Largando faíscas,
Quase explodindo.
Batendo biela,
Pedindo penico,
Queimando as pestanas.
Lá vou eu de novo,
Novas velhas
Histórias,
Velhos novos
Caminhos.
De ré pra frente,
Engolindo sapos,
Tomando sopa de pedra.
Vazando pelo ladrão,
Revertendo turbina,
Caindo pelas tabelas.
Cá estou eu de novo,
Poucos velhos
Amigos,
Velhos poucos
Sonhos.
Em sinuca de bico,
Matando cachorro a grito,
De cara pro Sol.
Fazendo firulas,
Escondendo o jogo,
Penteando macaco.
Sempre (quase) perdido,
Quase sempre sozinho.

segunda-feira, 26 de março de 2007

PIRATAS, CORSÁRIOS E BUCANEIROS



Navegando na minh’alma,
Singrando o meu mar,
Nenhum porto me acalma;
Sinto o peito a sangrar.

Vento, sol, calmaria,
Tempestade e luar;
Meu navegar impreciso,
Não tem norte a guiar.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas a rondar
Meu tesouro escondido
Que nem eu sei bem onde está.

Vento em popa, vela aberta,
Sou uma nave à deriva;
Sem sextante ou estrela,
Pra onde guio a minha vida?

Tripulante solitário
Sou grumete e capitão;
Dou-me ordens e obedeço;
Reaprumo o coração.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas a rondar
Meu tesouro escondido
Que nem eu sei bem onde está.

Os mistérios de Bermudas,
A Atlântida lendária,
Já não cabem nos meus sonhos
De uma vida imaginária.

Abaixo velas, ponho remos;
Leme em prumo; direção.
Meus fantasmas vão sumindo
Sem um tiro de canhão.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas derrotados
Meu tesouro escondido
Verei, um dia, ao meu lado.

Sem pressa sei que chego
Onde tenho que chegar;
Se navegar não é preciso
Pararei de navegar.
É preciso viver
O impreciso viver.
É preciso viver
O impreciso viver.
É preciso viver,
É preciso viver
Viver,
Viver,
Viver...

ORAÇÃO AO TODO E ÀS PARTES

Oh Senhor,
Unidade em infinito multiplicada, guardião das nascentes e dos fins,
Dono das almas e das mentes, provedor de todo bem ou mal,
Criador de todas as criaturas, criatura de toda criação,
Fonte de toda dor e de todo prazer,
Luz de todos os olhos, cegueira em toda opressão,
Mostrai que o caminho para ti é o caminho de todas as vidas,
Que não estás nas pedras dos templos, nos símbolos sagrados,
Nos textos inventados por quem te reinventa por interesse!
Mostrai, pai e filho de tudo e de todos,
Que a fé não é aprendida em orações, promessas, dádivas ou penitências,
Que os ritos coletivos não refletem a espontaneidade do amor,
Que sua força e sua vontade são as nossas forças e vontades,
E que cada coisa, cada ser, faz parte de um todo uno,
E que todo preconceito, todo desprezo, toda censura, todo menosprezo,
Todo julgamento, todo subjugo de um ser para com outro ser ou coisa,
Será sempre uma navalha a Te ferir, e que apesar do corte profundo,
Cada gota sangrada fará surgir, em algum ponto do universo,
Uma nova parte deste total que muitos apenas costumam chamar de Deus,
Sem atentar que o verdadeiro sentido da existência desta força
Que conduzimos e que nos conduz, não estará, jamais,
Presa a uma denominação, religião ou instituição!
Oh Senhor,
Obrigado por sermos todos iguais e, no entanto, todos tão diferentes,
E por isso mesmo tão ligados, apesar de, por muitas vezes,
Tão distantes uns dos outros!
Obrigado por mostrar-me que tenho fé em Ti por tê-la em mim mesmo,
E que a dúvida sempre surgirá, pois somos imperfeitos,
Estamos em desenvolvimento eterno, e assim,
Buscando sempre alcançar o melhor de cada um de nós,
Faremos com que cresças junto conosco!
Oh Senhor,
És-me,
Sou-te,
Somo-nos uníssonos acordes na amplidão,
Nos compreendemos, nos cremos, nos amamos e nos vivemos
Numa relação bilateral de criador e criação,
E esta é, para mim, a verdadeira tradução
Do todo e das partes!

O ALMIRANTE


Nhô Tonho era desses sujeitos nascidos e criados na roça. Mas, apesar da pouca instrução, tinha dado estudo e formado os três filhos. Eles agora eram “doutores” e moravam na capital. Pouco iam ao velho sítio visitar o pai e a mãe, Dona Sinhá. Vez em quando, telefonavam para saber dos velhos.
O grande prazer de Nhô Tonho era cuidar do seu galinheiro. E, desde que tinha ganhado do compadre Chico um galeto todo branco, que agora era um garboso Galo, todo alvo, a quem ele chamava de Almirante, que Nhô Tonho ele passara a se dedicar com mais afinco ao seu criatório. Almirante era um galo dos bons e, para o velho Tonho, mais que isto. Era quase um filho.
O tempo passava e o apego de Nhô Tonho com Almirante só fazia aumentar. O galo comia ração em suas mãos, seguia-o pelo terreiro enquanto ele espalhava milho para as galinhas e, após o almoço, enquanto o dono tirava um cochilo na espreguiçadeira da varanda, se empoleirava na cadeira ao lado, como se estivesse tomando conta de Nhô Tonho.
Os filhos, quando ligavam, de quando em vez, se riam das histórias que, por vezes a mãe, em outras o pai, contavam sobre o tal Almirante.
Certa manhã, Nhô Tonho acordou sobressaltado. O seu querido Almirante não havia cantado no terreiro para tirá-lo da cama. Correu para o galinheiro e seu mundinho desabou. Lá estava o velho Almirante, seu companheiro, estirado, morto.
Nhô Tonho adoeceu. Não queria mais saber do galinheiro, pouco comia e Dona Sinhá, preocupada, ligou para os filhos, pedindo desculpas pelo incômodo. Todos prometeram ir ver o pai.
Carlos, o mais velho, que era “doutor” advogado foi o primeiro a ir ver o pai. Chamou-o à razão, pois não fazia sentido tanto lamento por causa de um simples galo. O pai ouviu calado, balançando a cabeça. O filho, dada a sua missão por cumprida, tomou a benção aos velhos e voltou para a capital.
Pedro, o filho do meio, que era “doutor” engenheiro, chegou cheio de presentes para o pai. Um rádio novo, calças, camisas e algumas palavras de consolo foi tudo que deixou na rápida visita. Dada a sua missão por cumprida, tomou a benção aos velhos e voltou para a capital.
Francisco, o filho mais novo, que era “doutor” Psicólogo, telefonou para Nhô Tonho, pedindo desculpas por não poder ir vê-lo naquela semana, pois tinha um congresso para ir, em outro estado. Mas estava lhe enviando um “presentinho”.
Nhô Tonho disse então a Dona Sinhá: - A gente cria os filhos, forma tudo em doutor e depois de estudados eles deixam de dar valor às coisas que realmente importam. Eles parecem não entender que Almirante não era apenas um galo qualquer. Era meu companheiro! Carlos veio pra me dar bronca, Pedro pra me encher de presentes e Francisquinho nem aqui vem. Vai mandar um presentinho por um portador. Não vou nem querer ver o presente deste ingrato.
Dois dias depois chega a encomenda mandada pelo filho caçula. Quem recebeu foi Dona Sinhá, que com os olhos rasos d’água, chamou o marido. Tonho, meu velho, como você foi injusto. Carlos e Pedro fizeram o que acharam que era acertado. Podem ter errado, mas tentaram. E Francisquinho, você julgou sem compreender os compromissos dele. O “presentinho” chegou!
Quando Nhô Tonho abriu a pequena caixa de madeira, lá estava um franguinho todo alvo e um bilhete do filho: “Querido e amado pai. Sei que nada substitui um amigo que se perde. Mas, por favor, veja se o senhor consegue transformar este pequeno marujo em um almirante. Com amor, seu filho Francisquinho”.